A temática LGBTQIAPN+ em cena: ações socioeducativas na telenovela Segundo Sol

Equipe UFPE da Rede Obitel Brasil lidou com a abordagem de discussões sociais relacionadas ao casal Maura e Selma na telenovela da Rede Globo

A função pedagógica da telenovela como espaço privilegiado de encenação de temáticas sociais atuais na sociedade brasileira tem sido amplamente reconhecida pelos pesquisadores e pesquisadoras da teledramaturgia nacional. A professora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, por exemplo, considera que a telenovela brasileira está imbricada histórica e culturalmente com a construção da identidade brasileira, considerando-a como uma “narrativa da nação”, capaz de representar uma contemporaneidade sucessivamente atualizada do país.

Dentre as temáticas sociais abordadas nas telenovelas brasileiras estão as questões associadas ao grupo LGBTQIAPN+, comunidade composta por pessoas que se identificam como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersex, assexuais, pansexuais, polissexuais, não-binárias e outras possibilidades de expressão da sexualidade e da identidade de gênero. 

Personagens como os casais Félix e Niko, de “Amor à Vida” (Globo, 2013), Marcela e Marina, de “Amor e Revolução” (SBT, 2011), e o homem trans Ivan, de “A Força do Querer” (Globo, 2017), são importantes representações LGBTQIAPN+ nas telenovelas brasileiras

A partir dos anos 2000 e da década de 2010, em especial, os personagens e as experiências de vida de pessoas LGBTQIAPN+ conquistaram mais relevância dramatúrgica e tempo de tela nas telenovelas brasileiras, particularmente naquelas produzidas e exibidas pela Rede Globo – embora não exclusivamente, como demonstra o casal sáfico Marina e Marcela, de Amor e Revolução, obra exibida pelo SBT em 2011 que contou com uma cena de beijo entre as personagens.

Com isso em mente, uma das investigações realizadas pela equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) (Fechine et al., 2019) no Obitel Brasil buscou entender quais foram as percepções da audiência da telenovela Segundo Sol (Globo, 2018) em relação às ações socioeducativas colocadas em cena acerca do casal homoafetivo Maura e Selma, interpretadas pelas atrizes Nanda Costa e Carol Fazu, respectivamente.

Selma (Carol Fazú) e Maura (Nanda Costa) formam casal homoafetivo em “Segundo Sol” (2018)

A discussão de temáticas sociais na telenovela brasileira

Mas, afinal, o que são as “ações socioeducativas” encenadas pelas obras da teledramaturgia nacional? Desde a década de 1970, as telenovelas brasileiras têm investido em um estilo de contação de histórias que estabelece uma relação muito próxima entre ficção e realidade ao abordar assuntos que são relevantes para o desenvolvimento social, político e cultural do país. 

Beto Rockfeller (TV Tupi, 1968) é considerada um marco dessa mudança de abordagem da telenovela de um viés mais sentimental para um olhar mais realista e sintonizado com os anseios da sociedade. Na época, o Brasil passava por um processo de intensa modernização, que foi incorporado na obra através da ambientação da trama no contexto das grandes cidades e da adoção de uma linguagem coloquial e de um repertório de referências compartilhado pela população brasileira, que vivia um período de migração das cidades interioranas para as metrópoles. Em 1971, a versão original de Meu Pedacinho de Chão, uma coprodução entre Rede Globo e TV Cultura, tratou do analfabetismo de adultos, da desidratação infantil, da vacinação e de outras questões de saúde e dignidade humana dos trabalhadores do campo e da população rural. 

Desde então, a tematização de assuntos sociais pertinentes para a realidade brasileira apareceu em diversas obras de sucesso dos anos 1970 a 1990 e ganhou força a partir da última década do século XX, quando a teledramaturgia nacional assumiu mais claramente a intenção de educar a sua audiência – processo que resultou na criação da área de Responsabilidade Social na Globo, em 2011, com o objetivo de desenvolver ações socioeducativas em diversos programas da grade da emissora, inclusive nas telenovelas. Essa abordagem, também chamada de merchandising social (Lopes, 2009), tem o objetivo deliberado de “difundir conhecimentos, promover valores e princípios éticos e universais, estimular a mudança de atitudes e a adoção de novos comportamentos e pautar questões de relevância social, incentivando o debate pela sociedade” (Fechine et al., 2019, p. 140-141). 

É importante ressaltar que a reflexão sobre temas sociais relevantes para a sociedade brasileira nas telenovelas costuma estar em sintonia com as discussões em pauta a cada momento histórico do país e não é um movimento exclusivo e unidirecional das obras televisivas. Pelo contrário, tais abordagens são dotadas também de dissonâncias e contradições, avanços e retrocessos, e estão sempre sujeitas às percepções e reações da audiência. Isso é especialmente verdadeiro nos casos de remakes e reprises de novelas antigas, que conectam diferentes contextos sociais de produção, distribuição e recepção das obras, como demonstrado pelo estudo da equipe UFRGS sobre a reexibição Laços de Família duas décadas após sua estreia.  

Representatividade LGBTQIAPN+ e ações socioculturais em Segundo Sol

O casal Clara e Marina, de “Em Família” (Globo, 2014), protagonizou o primeiro beijo entre mulheres em telenovelas da Globo. Em 2024, as atrizes trans Maria Clara Spinelli (Reneé) e Gabriela Medeiros (Buba) estiveram no ar simultaneamente com papéis centrais em “Elas por Elas” (Globo, 2023) e “Renascer” (Globo, 2024), respectivamente

Embora os personagens LGBTQIAPN+ estejam presentes nas telenovelas brasileiras desde a década de 1970, é significativo notar que a representação da temática ganhou mais destaque a partir do século XXI, mesmo período em que os movimentos sociais de luta pelos direitos da comunidade conquistaram mais espaço e legitimidade no reconhecimento das questões de gênero e sexualidade no Brasil. Segundo dados levantados pela equipe UFPE do Obitel Brasil (Fechine et al., 2019, p. 142), 33 telenovelas brasileiras exibidas entre 2011 e 2018 contavam com personagens LGBTQIAPN+.

Os pesquisadores do grupo UFPE também destacam que, além de ganhar mais visibilidade, “a construção dos personagens no espectro LGBTQIAPN+ passa a ser orientada pela preocupação em evitar as representações caricaturais do passado” (Fechine et al., 2019, p. 142), mesmo que essas representações nem sempre escapem dos estereótipos. 

No caso da telenovela Segundo Sol, a temática LGBTQIAPN+ é encenada a partir do casal sáfico Maura e Selma. Na trama, Maura é uma policial que vive com os pais, Nice (Kelzy Ecard) e Agenor (Roberto Bonfim), e com a irmã, Rosa (Letícia Colin). Ela mantém um caso em segredo com a vizinha Selma, que é casada com um homem. Após a morte acidental do marido de Selma, elas passam a idealizar uma vida juntas, plano que envolve a necessidade de se assumirem publicamente, inclusive para a família de Maura, cujo pai é machista e extremamente conservador.

Apesar dos desafios enfrentados ao longo da trama de “Segundo Sol”, Maura e Selma terminam a telenovela juntas

De acordo com a equipe Obitel UFPE (Fechine et al., 2019), as cenas de objetivo socioeducativo mais claramente pedagógicas são as que lidam com a revelação da sexualidade de Maura e com os conflitos desencadeados a partir daí. A pesquisa destaca duas sequências de Segundo Sol que servem de exemplo para o caráter socioeducativo que as telenovelas podem assumir quando abordam a temática LGBTQIAPN+. 

A primeira cena, exibida em 05 de julho de 2018, diz respeito à revelação da sexualidade de Maura para a sua família, momento que é frequentemente vivenciado de forma conflituosa por pessoas dessa comunidade. A conversa de Maura com sua mãe representa o sofrimento imposto aos filhos por pais preconceituosos. Ao longo da trama, Nice muda de atitude em relação à filha, o que reforça a abordagem didática da telenovela no que diz respeito ao acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+. 

Já a segunda cena, transmitida em 17 de julho de 2018, acontece depois que o pai de Maura também descobre sobre o romance da filha com Selma e a expulsa de casa. A irmã de Maura, Rosa, já sabia do relacionamento e acolheu a personagem desde o início, demonstrando aceitação e empatia. Aqui, ela assume o papel de porta-voz da comunidade LGBTQIAPN+ ao defender Maura diante do pai, em um diálogo claramente pedagógico na telenovela

Em um outro momento da novela, Maura acaba por se envolver com o amigo e doador de esperma do casal, Ionan (Armando Babaioff), chegando a formar um triângulo amoroso com Selma. Alguns dos espectadores entrevistados na pesquisa da equipe Obitel UFPE apontam que o desenvolvimento pode ter causado mais confusão do que esclarecimento entre o grande público, tendo em vista que Maura foi apresentada inicialmente como uma mulher lésbica (Fechine et al., 2019, p. 145-146). Tal fato demonstra como a abordagem de temáticas sociais nas telenovelas não é um processo sem controvérsias e exige a difícil negociação entre didatismo e dramaticidade na construção das representações colocadas em cena.

Por outro lado, os participantes da pesquisa, todos integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ e atuantes em movimentos sociais e organizações dedicadas ao tema, também foram unânimes em destacar que a visibilidade conferida ao assunto em Segundo Sol tem o potencial de fomentar o debate com uma audiência mais ampla – mesmo que a abordagem deixe margem para melhorias e aprofundamentos necessários à reflexão. Ainda que a efetividade das ações socioeducativas nas telenovelas brasileiras não possa ser atestada de maneira indiscutível, é fato que elas contribuem para a discussão social da temática e para os avanços na representatividade LGBTQIAPN+ positiva na televisão brasileira.

SOBRE A PESQUISA

Título: Ações socioeducativas nos mundos da telenovela transmídia: um estudo a partir da abordagem de questões LGBTQIA+

Autoria: Yvana Fechine, Cecília A. R. Lima, Diego Gouveia Moreira, Gêsa Cavalcanti, Marcela Chacel

Publicação: FECHINE, Y. et al. Ações socioeducativas nos mundos da telenovela transmídia: um estudo a partir da abordagem de questões LGBTQIA+. In: LOPES, M. I. V. (org.). A construção de mundos na ficção televisiva brasileira. (Coleção Teledramaturgia, Volume 6). Porto Alegre: Sulina, 2019. p. 135-156.

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