Ações transmídia na Rede Globo: Alexia Maltner compartilha as experiências na criação de conteúdos para as redes

A diretora Alexia Maltner conta, em entrevista, como foi o processo de produção de conteúdos transmídia em Malhação - Viva a Diferença e explica como surgiu a websérie do GShow, Atormentados

Alexia Maltner é diretora audiovisual e teatral, além de fotógrafa. Trabalhou por mais de 15 anos na Rede Globo e fez parte da equipe de programas como Os Caras de Pau (2006-2013), Chapa Quente (2015-2016) e Malhação – Viva a Diferença (2017-2018), nos quais foi assistente de direção. Também foi a criadora e diretora da websérie exclusiva do GShow, Atormentados (2014).

Em entrevista à vice-coordenadora da equipe UFJF do Obitel Brasil, Daiana Sigiliano, e aos pesquisadores do Observatório da Qualidade no Audiovisual, Vinícius Guida e Gabriel Telles, Maltner comenta sobre o processo de criação de conteúdos para as redes sociais e para o portal GShow, focando nas suas experiências em Malhação e em Atormentados. A diretora também fala a respeito da interação com os fãs e do feedback do público.

Como foi o processo transmídia em Malhação – Viva a Diferença? Até que ponto a demanda do público, ou seja, a repercussão nas redes sociais e o retorno do público, influencia esse modo de produção?

Em Malhação, tivemos uma experiência que foi um pouquinho além do que é transmídia dentro da empresa [Globo]. A transmídia tem uma equipe específica que trabalha no GShow, que produz e que estuda esse conteúdo que vai ser apresentado para o público nas redes sociais e dentro do site específico do GShow. Só que, em Malhação, percebemos que tinha um pouco mais de repercussão. Em Malhação – Viva a Diferença, houve um contato muito maior com o público a partir dos casais que se formaram. A partir desses casais, naturalmente o público foi sendo dividido também. E foi se estabelecendo alguns nichos dentro do fandom de um modo geral. E, percebendo isso, a gente sempre tentava fazer projetos de transmídia direcionados para esses públicos. Paramos de fazer uma coisa mais generalizada e passamos a focar nos casais, nos pontos que eram importantes dentro da trama semanalmente. 

Por exemplo, houve um ensaio fotográfico de Gunê [ship dos personagens Guto e Benê] na semana do Dia dos Namorados, que fez um baita sucesso e foi muito interessante. Os clipes, de um modo geral, foram onde eu mais participei. Eu conseguia fazer uma parceria com a equipe de transmídia, onde eu ficava responsável por dirigir os videoclipes da Malhação. Dependendo do videoclipe, fazíamos de forma um pouco mais simples ou um pouco mais trabalhada, mesmo que a feitura dele não fosse com tanto luxo. A gente trabalhava num sistema mais de guerrilha mesmo. Então, o meu papel dentro da transmídia foi acompanhar, dando um suporte de formato, porque eles, às vezes, tinham ideias para desenvolver, mas não tinham alguém, no caso da direção, para estar presente, para acompanhar, e eles julgavam necessário que tivesse. 

Foi uma experiência para mim absolutamente nova. Eu trabalho na Globo há 15 anos e nunca, em nenhum projeto anterior, eu participei tão efetivamente de conteúdos voltados para as redes sociais. Fui percebendo que, quanto mais a gente produzia, melhor era esse contato com o público. O número de postagens do Twitter aumentava, estávamos sempre nos trending topics e crescíamos quando produzíamos esse conteúdo voltado para as redes sociais. 

Ao longo da novela, a gente foi reforçando essa parceria, para mais possibilidades de conteúdo. O que eu achei bonito nesse projeto, que me tocou de uma certa forma e que me fez me abrir, me colocar absolutamente disponível para o público do Twitter, do Instagram, foi que as mensagens que chegavam para mim eram sempre muito positivas, dizendo sobre o quanto aquele conteúdo mudava a vida daquelas pessoas. Isso eu nunca tinha visto assim, tão diretamente. E eu falei “nossa, a gente precisa ir muito além da TV”. Realmente a gente está fazendo um trabalho que está mudando a vida das pessoas. A gente está tocando em temas que estão realmente mexendo com o comportamento desse público. É um comportamento na vida real, fora da TV. Eu acho que é justo que a gente dialogue com essas pessoas, que a gente ouça essas pessoas. 

Como foi essa sua relação com o público de Malhação?

Eles [o público] se retroalimentam e acabam, entre si, discutindo ou concordando, criando seus nichos e se dividindo em times. Algumas vezes, quase fui atacada, porque comecei a gerar mais conteúdo sobre Limantha [ship das personagens Lica e Samantha], então o público de Gunê ficou um pouco raivoso comigo. Eu dialogava e dizia “calma, vai ter coisas à frente, aguardem”. 

Como é um público muito jovem, eles são muito imediatistas. Eu tenho uma ética profissional, então eu não podia abrir nada antes do tempo, mas eu sabia [que teria algo], então eu tentava, de alguma forma, acalmá-los. Mas eu percebia que eu era cada vez mais procurada por eles. E, muitas das vezes, eu gostava de deixá-los assim e mostrar um pouquinho do que acontecia nos bastidores. Fazia uns stories, umas lives, bumerangues, buscava mostrar trechinhos para que eles ficassem felizes. Isso gerava repercussão, eles mandavam mensagens querendo saber o que iria acontecer. 

Para mim, foi uma experiência absolutamente rica e inovadora, mergulhar nesse universo, que até então para mim era desconhecido. Eu não vejo, desse momento para frente, uma outra forma de dialogar com o público que não seja estendendo esse diálogo. Eu acho que o que gerou uma diferença nessa Malhação é que eu não só expus para eles algo que iria acontecer ou coloquei novidades, mas eu fiz uma outra coisa, que eu acho que não é algo habitual das emissoras de TV, que é ouvir. 

Quando você ouve o público, você entende o que o público está absorvendo do seu trabalho e o que está digerindo e levando para frente. Porque você pode estar falando um monte de coisa, mas só 10% daquilo é absorvido, e você não entende porque o projeto, a novela ou a série não está alcançando o público. Porque você entrega, mas você não sabe, não ouve de volta. Então eu acho que a Malhação deu essa possibilidade de ouvir o público. Essa foi a minha primeira experiência efetiva com um projeto de transmídia na minha carreira.

“A gente está fazendo um trabalho que está mudando a vida das pessoas. Está tocando em temas que estão realmente mexendo com o comportamento desse público. É um comportamento na vida real, fora da TV. Eu acho que é justo que a gente dialogue com essas pessoas, que a gente ouça essas pessoas”

O que a gente observa é que existe uma certa abertura, principalmente com as redes sociais, de dialogar, mas ainda é muito engessado. Você não só interagia, como também produzia conteúdo direcionado para os fãs. Até que ponto a participação do público é benéfica para a construção de uma narrativa que ainda está em aberto? 

Eu estava o tempo inteiro assistindo aos capítulos e, às vezes, eu fazia alguma live, tirava alguma foto onde tinha uma cena ao fundo. Eu não tinha ideia do quanto isso geraria conteúdos a mais nas redes sociais. 

Meu Twitter estava desativado há anos e eu resolvi começar a entrar de novo quando o pessoal de transmídia trouxe para a gente a notícia de que o Twitter sempre bombava e que tinha uma repercussão absurda após os capítulos. Então, em um primeiro momento, eu entrei no Twitter para acompanhar, para entender o que estava acontecendo, porque eu queria entender que público era esse com o qual eu nunca tinha trabalhado, essa faixa etária de público. 

No Twitter, comecei a acompanhar as conversas, o que estava acontecendo, o que as atrizes postavam. Quando eu postava fotos no Instagram, as fotos tinham 5 mil curtidas, 4 mil, e eu falei “gente, eu nunca vi isso”. Daí passei a acompanhar os diálogos dentro do fandom, comecei a responder as mensagens que me eram encaminhadas no privado, comecei a conversar com esse público. Alguns eram líderes, eram pessoas que estavam à frente de um fã clube, à frente de um grupo. Começaram a me seguir, começaram a dialogar sobre o conteúdo, e eu sempre respondia. Então, fui numa questão de querer entender o que estava acontecendo nas redes sociais. Comecei a postar, porque eu sentia que eles me pediam. 

Quando eu via que os pedidos eram possíveis de serem atendidos dentro de um dia de gravação, quando tinha uma brecha eu sempre fazia, e isso foi causando mais repercussão. Claro, eu fiquei um pouco preocupada, mas nunca foi a intenção causar algum tipo de ansiedade excessiva ou de pensamentos. Isso aconteceu algumas vezes, em algumas situações em que havia um “telefone sem fio”, quando eu dava uma informação, mas o público absorvia de outra forma e criava uma outra história. 

Muitas vezes eu falava com alguém: “passa adiante a informação”. Eu não podia falar com todo mundo, mas tentava, de alguma forma, não deixar nenhuma informação truncada que gerasse uma ansiedade, de “ah, vai acontecer isso” e, de repente, não acontecer, e isso gerar frustração. Esse cuidado eu procurei ter na maioria do tempo. É delicado, sim, a gente tem que ter cuidado de tentar não gerar uma ansiedade, uma expectativa irreal do que vai acontecer. 

Alexia Maltner criou e dirigiu a websérie Atormentados. Fonte: GShow

A gente tem falado muito de Malhação, mas você também tem um trabalho considerável voltado para a internet, no GShow. A partir dessa concepção do que é o modo de produção e o ritmo incessante da televisão, o que muda ao pensar nesses conteúdos para a web? 

Em 2014, a Globo lançou o site GShow. Eu percebi, naquela época, que a gente estava um pouquinho atrasado em relação ao que estava acontecendo no mundo, porque o YouTube já tinha surgido lá atrás, já com conteúdo há pelo menos uns nove, quase dez anos. 

Em 2011, eu participei de um laboratório de humor, que foi feito na Tycon – que era um estúdio da Globo que não existe mais – com 12 humoristas. Então, juntaram-se 12 atores de humor e mais 12 roteiristas de humor, e o Marcius [Melhem] coordenou um laboratório, onde os roteiristas criavam cenas e os atores ficavam à disposição. A gente ficava o dia inteiro na Tycom, como se fosse um grande workshop coletivo, criando, desenvolvendo, ensaiando e gravando essas cenas, para que daí surgisse um novo programa de humor. 

Nessa época, eu estava fazendo assistência do Marcius e ficava o dia inteiro com aqueles atores lá, acompanhando todo esse processo dos roteiristas, dos atores, dos ensaios, das cenas. E teve uma hora em que eu falei assim: “gente, fico aqui o dia inteiro, tem algo mais que dá para fazer nesse espaço. Eu tô com 12 atores maravilhosos aqui”. 

Eles faziam muita coisa nos bastidores, que era o mais divertido. Eu comecei a olhar para isso e pensei que daria um conteúdo. Conversei com Alex Medeiros, que na época era o coordenador geral, e tive a ideia de criar um reality, onde 12 atores eram chamados para um processo seletivo, mas não sabiam para quê. Era um processo em que eles ficavam reclusos no lugar, o que, na verdade, era o que eles estavam realmente passando naqueles dias, sem saber qual seria o resultado final desse processo. Mas era uma ideia, que surgiu como uma brincadeira. 

A minha ideia, naquela época, em 2011, era lançar esse conteúdo como pílulas de um minuto no YouTube. Porque estavam começando a surgir muitos conteúdos de curta duração. Então eu queria muito lançar esse conteúdo no YouTube e comecei a gravar. Gravava cena aqui, cena ali. Pensei em desenvolver uma escaleta de roteiro, mas como eles eram excelentes atores de improviso, de humor, basicamente o texto foi sendo feito junto com eles. Então, eu tinha uma escaleta de doze episódios de pílulas, para gerar uma curiosidade no público, sem dizer o que era aquilo. Se esse programa que a gente estava tentando criar realmente ficasse pronto, isso poderia ser um conteúdo de lançamento. 

O que aconteceu é que o laboratório acabou não dando certo, e todo o conteúdo que gravei ficou arquivado, porque eu gravei dentro da emissora, gravei com os atores contratados e eu também sou contratada, então como tudo feito lá dentro, automaticamente, virou um projeto da TV Globo. Nós seríamos os precursores do Porta dos Fundos. 

Quando foi em 2013, estava acontecendo essa ideia de criar o GShow, com webséries, conteúdos exclusivos só para a internet. Alex me procurou e me falou: “olha, a gente quer estrear o Atormentados junto com o GShow”. A encomenda era um episódio de cinco minutos. O que aconteceu foi que a gente acabou tendo que reverter esse material todo, e eu tive que rever tudo, três anos depois, e selecionar, montar, tentar fazer com que esse material virasse doze episódios. 

A partir desses episódios, foi criado o Atormentados, que foi colocado no ar como uma websérie, mas que não foi pensado dessa forma. Eu tinha pensado nele, realmente, como um conteúdo para que gerasse uma curiosidade no público, para que isso virasse, futuramente, um programa ou algo para a emissora. Então, como foi desvirtuado um pouco do seu objetivo inicial, ele não foi um projeto que teve tanta repercussão positiva quanto eu imaginava que aconteceria lá atrás, em 2011. Mas foi uma experiência muito legal, para mim e para os atores. E foi uma experiência de desenvolver um conteúdo com o mínimo de recurso, e acho que daí, desse sistema guerrilha, vou, cada vez mais, tentando fazer coisas novas.