“As novelas são um reflexo da sociedade”, avalia roteirista Alessandro Marson

Em entrevista à pesquisadora do Obitel Brasil, Gêsa Cavalcanti, Marson reflete sobre o gênero telenovela e comenta sobre o processo de escrita e produção dessas obras

Novo Mundo (2017), Nos Tempos do Imperador (2021-2022) e o remake de Elas por Elas (2023-2024). Ao lado de Thereza Falcão, o roteirista Alessandro Marson assina a autoria dessas telenovelas da TV Globo, em uma parceria de sucesso. Mas essas não são as únicas obras que aparecem no currículo de Marson. Ele também colaborou em inúmeras novelas, como Cordel Encantado (2011) e Avenida Brasil (2012) – o grande sucesso que levou a personagem Carminha às graças do público.

Nesta entrevista do Papo Obitel, realizada pela pesquisadora da equipe da Universidade Federal de Pernambuco, Gêsa Cavalcanti, o roteirista explica, sob sua perspectiva, como é a criação e a produção de uma telenovela e aborda a importância desse gênero para os brasileiros. Para Marson, a novela é um reflexo da sociedade e pauta as conversas cotidianas, desde os assuntos do ponto de ônibus aos do balcão do boteco.

Como foi seu primeiro contato com a indústria da telenovela?

Fiz uma Oficina de Roteiristas da TV Globo em 1997. Depois disso, tive uma passagem de dois anos pela TV Cultura em São Paulo, escrevendo programação infantil. Fiz duas temporadas do Cocoricó, as de 1998 e 1999. Depois, fui contratado pela Globo, escrevi Turma do Didi (1998-2010) e Sítio do Pica-Pau Amarelo (2001-2007). Saí do Sítio e fui escrever a série Sob Nova Direção (2004-2007). Também fiz duas temporadas de Malhação (1995-2020) e, depois, fui fazer novela. Enquanto colaborador, eu participei em mais de dez novelas, entre elas Cordel Encantado, Avenida Brasil, Flor do Caribe (2013), Joia Rara (2013-2014). 

Nesse percurso você trabalhou com nomes como Walter Negrão, Duca Rachid, Thelma Guedes, João Emmanuel Carneiro. Existe um autor que mais tenha influenciado o seu estilo? Quais suas referências? 

Sou muito influenciado pelo que eu vi quando era criança, especialmente pelas novelas do Silvio de Abreu e do Cassiano Gabus Mendes, nos anos 80. Hoje, o Silvio é meu chefe. E é uma honra, sim, poder conversar com ele, porque é um profissional que eu sempre admirei muito.

Como surgiu a trama de Novo Mundo

Começamos pensando na premissa, para depois chegar à história. Queríamos fazer uma novela de “herói”, uma história na qual o protagonista tivesse objetivos maiores, que fugisse dos desejos individuais e almejasse algo grandioso, que influenciasse a vida de muita gente. Foi assim que chegamos à história de Joaquim e da Independência do Brasil.

Como foi o processo de conseguir uma continuação de Novo Mundo com Nos Tempos do Imperador? Porque, embora isso já tenha acontecido outras vezes, esse tipo de movimento é raro na história da teledramaturgia. 

Novo Mundo fez muito sucesso, felizmente, tanto sucesso de público como sucesso de crítica. Foi uma novela que repercutiu, que deu audiência e que agradou grande parte dos espectadores. A partir daí, nos foi encomendada uma sequência. Claro, já havia, de nossa parte, este desejo. Mas, antes mesmo de Novo Mundo terminar, a emissora já pediu que começássemos a pensar na sequência, contando uma história na qual Dom Pedro II participasse.

Dom Pedro I (Caio Castro) e Imperatriz Leopoldina (Letícia Colin) na telenovela Novo Mundo.
 Fonte: TV Globo

Como é o seu processo de escrita? Como lida com a produção diária dos primeiros capítulos depois da entrega da frente inicial?

Escrever uma novela é sempre um processo desgastante, são muitos capítulos, você trabalha muito durante muito tempo. O fato de ter sido colaborador antes de ser autor me ajudou bastante. Fui me preparando para ser autor ao longo da minha carreira. Hoje, tenho total consciência do processo de produção de uma novela, sei que tipos de cena são mais trabalhosas, o que é necessário para se realizar o que se escreve. Há autores que têm dificuldade de compreender o processo como um todo, e isso gera cenas irrealizáveis. Para mim, é fundamental que o autor compreenda a totalidade do processo, que consiga pensar na realização. É isso que faz a diferença na relação com a direção e com a produção, principalmente numa obra diária.

Como é a divisão de trabalho com a Thereza Falcão e a dinâmica com os colaboradores?

Eu e a Thereza nos encontramos diariamente, planejamos os blocos, dividimos os acontecimentos e escaletamos os capítulos juntos. Só depois disso é que entram os colaboradores. Uma vez que os capítulos estão escaletados, distribuímos as escaletas para os nossos colaboradores, que escrevem as cenas e nos devolvem. Aí, com os capítulos redigidos, fazemos a redação final e entregamos os capítulos para a produção.

Os capítulos de Nos Tempos do Imperador continuam sendo escritos mesmo com a paralisação devido à pandemia? 

Sim, optamos por continuar trabalhando. É muito duro estar no meio de um processo e parar para retomar depois. Achamos melhor seguir escrevendo.

Com a entrada de tantas produções internacionais no mercado brasileiro, em sua opinião, o que ainda faz com que a telenovela seja o produto de ficção mais consumido no Brasil? O que mantém o gênero? O que precisa ser renovado? 

A telenovela é um produto brasileiro, fala diretamente com os brasileiros. Foi uma relação construída ao longo de muitos anos. As novelas são um reflexo da sociedade, dão respostas, mas também fazem perguntas. Muitas vezes, os temas que as histórias lançam viram questões no cotidiano das pessoas, os assuntos saem da TV e entram na sala de estar, na cozinha, no escritório, no ponto de ônibus, no balcão do boteco. Isso é muito poderoso. Acho que as novelas terão vida longa, elas são um hábito de consumo no Brasil há muitos anos e conseguem fazer com que milhares de pessoas parem num mesmo horário e sintonizem num mesmo canal, ao mesmo tempo. Elas evoluem e se modificam desde que foram criadas, é inegável que uma novela hoje é muito diferente de uma novela que foi exibida há dez anos, que já era muito diferente de uma que havia sido exibida há 30 anos. Essa renovação vem acontecendo e vai continuar acontecendo. As histórias são outras, a estética é outra, as novelas estão acompanhando as transformações do mundo.

“As novelas são um reflexo da sociedade, dão respostas, mas também fazem perguntas. Muitas vezes, os temas que as histórias lançam viram questões no cotidiano das pessoas, os assuntos saem da TV e entram na sala de estar, na cozinha, no escritório, no ponto de ônibus, no balcão do boteco. Isso é muito poderoso”

O que não pode faltar no gênero telenovela? Qual seria a essência que une as produções independente de faixa? 

Uma novela tem que emocionar. Se a trama não conseguir pegar o espectador pela emoção, ela não fará sucesso. Depois de emocionar, ela pode fazer pensar, pode lançar questões, pode propor novidades, pode lançar moda, pode tudo. Mas se essa premissa básica não for cumprida, nada acontece. Novela se conecta com o público pela emoção e não pela razão.

Uma das características da telenovela, enquanto gênero, é sua processualidade, sua natureza enquanto obra aberta. Nesse sentido, como as demandas do público, agora potencializadas pelas redes sociais, interferem na condução da história? 

O fato de ser obra aberta já é um sinal de que as demandas do público serão atendidas. Se não fosse assim, não teria sentido fazer uma obra aberta, que é muito mais trabalhosa para se realizar. Mas é preciso tomar cuidado. O autor tem que ir além dos desejos do público, sacar o que o público quer (mas ainda não sabe que quer) e dar isso a ele. Se fosse satisfazer os desejos imediatos do público, não haveria vilões, não haveria conflito, não haveria sofrimento. Para uma história ser boa ela precisa provocar. O autor tem que estar além do espectador, tem que surpreendê-lo positivamente. 

“Se a trama não conseguir pegar o espectador pela emoção, ela não fará sucesso. Depois de emocionar, ela pode fazer pensar, pode lançar questões, pode propor novidades, pode lançar moda, pode tudo”

As chamadas novelas de intervenção, que tiveram sua produção potencializada a partir da década de 90, se preocupam com apresentar o Brasil problematizando-o e oferecendo soluções para questões sociais. Acredita que isso se intensifica nas produções atuais? Essa é uma preocupação nas suas novelas? 

Eu acho que tudo é válido desde que a história seja boa. O chamado “merchandising social” é uma ferramenta importante e é uma maneira de fazer com que a ficção interfira positivamente na sociedade. Campanhas como a das crianças desaparecidas, feita na novela Explode Coração (1995-1996), da Gloria Perez, por exemplo, foram importantíssimas e sem dúvida um exemplo de sucesso. Mas para este tipo de ação funcionar bem, a campanha precisa estar conectada com a história de maneira orgânica. Meu processo de criação é sempre a partir da história. Primeiro penso numa história que considero interessante e depois começo a desenvolver. É aí que essas ações podem ser inseridas. Mas, claro, cada autor tem um processo de trabalho particular, não há certo e errado, apenas formas diferentes de se fazer.

Tanto na academia quanto no mercado tem se falado bastante da ideia de telenovelas mais curtas como um caminho para a sobrevivência do gênero. O que acha dessa ideia? 

Acho que as novelas chegaram ao tamanho que são hoje porque existe uma necessidade de que elas sejam financeira e comercialmente viáveis. É preciso pensar nisso. Sou a favor de fazer obras mais curtas, mas é necessário pensar em como isso seria viável mercadologicamente. Se uma novela custa X milhões para ser produzida e este retorno só se dá a partir de seis meses de exibição, então precisamos pensar em como fazer uma novela custando ½ X  para que ela possa durar 3 meses.