Diretor Henrique Sauer reflete sobre a experimentação nas telenovelas: “a televisão brasileira já foi muito mais alternativa, progressista e inovadora”

Em entrevista, Sauer comenta sobre as inovações estéticas e narrativas no cenário televisivo brasileiro e especula sobre o futuro do mercado diante das novas dinâmicas de consumo

Henrique Sauer é diretor e atua há mais de 16 anos na TV. Figura conhecida na Rede Globo, tem em seu currículo trabalhos em novelas como Meu Pedacinho de Chão (2014), O Outro Lado do Paraíso (2017) e Império (2014-2015), além do original Globoplay Encantado’s (2022 – presente) e do curta-metragem Looking for a New Place to Begin (2019). Em entrevista à vice-coordenadora da equipe UFJF do Obitel Brasil, Daiana Sigiliano, e aos pesquisadores do Observatório da Qualidade no Audiovisual, Vinícius Guida e Gabriel Telles, Sauer comenta sobre a experimentação narrativa e estética nos seus trabalhos e examina o lugar da inovação no cenário da televisão brasileira.

Você tem em seu repertório obras que possuem uma construção de universo e uma estética muito específica, como no caso de Meu Pedacinho de Chão. Isso é observado não só em outros trabalhos que você dirigiu e como também em algumas produções do Grupo Globo. Como você avalia essa nova abordagem estética da televisão? 

Na minha opinião, não são formatos exatamente novos. Isso já foi mais usado, é só pegar Armação Ilimitada (1985-1988), por exemplo. Era muito surreal, era muita viagem, tudo era descontinuado ali. O diretor era Guel Arraes, hiper inventivo naquele momento, marcando território. Existe um histórico de produções que expandiam um pouco a ideia de realidade. E o DNA das novelas é realismo fantástico, né? A telenovela brasileira tem muita realidade fantástica. Em Rock Santeiro (1985-1986) ou Pedra Sobre Pedra (1992) tem um pouco disso. Talvez a gente consiga enxergar isso, hoje em dia, mais na forma do que no conteúdo. Esses meus trabalhos, na televisão especialmente, não foram criativamente conceituados por mim. Mas, por outro lado, sei que fui chamado por causa dessa minha característica de gostar desse universo. Gosto do que Jim Jarmusch faz, do Wes Anderson, dos Coen, que dão uma descoladinha do que é mais real. 

Você acha que o público tem abertura para isso? Até que ponto o público reconhece essa qualidade na imagem e tem interesse em consumir esse tipo de conteúdo?

Acho que em telenovela tem um limite de até onde conseguimos puxar isso. O Outro Lado do Paraíso foi um exemplo prático, porque começamos bem mais desgarrados. Quando Clara (Bianca Bin) estava em uma situação de perigo que se relacionava aos traumas que sofreu com Gael (Sérgio Guizé), usávamos umas imagens simbólicas, representações do que seriam os sentimentos dela. Isso não colou tanto. Por outro lado, a gente tem Meu Pedacinho de Chão, em que o código estabelecido era esse: era fantástico, era aquele arquétipo rasgado, colorido, reinventado, reciclado. A gente sustentou isso até o final. Então, não dá para ser muito preciso para saber quando o público vai comprar ou não, como vai aceitar aquilo ou não. Passa muito pela coerência de como você sustenta um conceito na obra inteira, porque isso gera uma nova diegese para quem está assistindo. É uma nova sensibilidade, na qual a pessoa entra na história e vai embora. 

É como quando você dá o play em Dogville (2003). Particularmente, quando eu comecei a assistir esse filme, falei: “cara, não vai rolar, não vou querer assistir”. E aí passou meia hora e eu estava vidrado. Estava lá apaixonado, acreditando em cada metralhadora, em tudo que não estava sendo visto. 

Mas é importante, independente da realidade em que você trabalha e da linguagem com que você trabalha, não ficar dando saltos entre a realidade e a fuga da realidade. Quando você fica saltando no conceito, o público não embarca nem em um, nem em outro. Acho que, talvez, em O Outro Lado do Paraíso, o texto não tenha sido pensado dessa maneira. Foi uma criação da direção e não conseguimos sustentar isso por muito tempo. O público não teve uma identificação muito grande com essa linguagem. Apesar de ter sido lindo e de ter um potencial, a gente não conseguiu transformar isso numa coisa contínua. 

Por outro lado, em Meu Pedacinho de Chão, pela mão pesada de Fernando Carvalho, não deixavam [essa linguagem] diluir. A gente ficava sempre naquele registro, desde a interpretação dos atores, até a maneira de representar isso na tela, o jeito de enquadrar a lente, basculada com aquelas deformações no canto. Acho que a fidelidade ao conceito é o que sustenta se o público vai comprar ou não.

Você comentou que tem uma experiência e uma paixão muito grande pela música, dirigindo videoclipes e falando frequentemente sobre isso no Instagram. A partir dessa concepção que você tem do audiovisual na música, como você enxerga esse processo de direção na telenovela e nos videoclipes? Como isso acontece, na prática, em termos de linguagem e experimentação?

Eu sou dos anos 1980 e me formei vendo muita telenovela. Isso foi quando a televisão estava no auge desse consumo do vídeo, de alugar fita para levar para casa e rebobinar na segunda-feira para entregar. Já nos anos 1990, eu me criei vendo MTV, então a biblioteca sensível e imagética que me forma como diretor vem muito dessa linguagem, para o bem e para o mal. Então, naturalmente, está presente na maneira como eu vejo o mundo.

Provavelmente, quando boto um fone de ouvido e estou no metrô passando pelas estações, tenho uma sensação parecida com aquela que tinha quando assistia clipes, de quando eu tinha 13 anos. É o jeito como vejo o mundo. Acho que está muito presente [no meu trabalho] e gosto de usar isso. Não sei se é uma marca. Especificamente na televisão, ainda não tenho muitos trabalhos autorais, porque sou um de um grupo grande de diretores de novela. 

Este ano [2019] estou fazendo minha primeira direção geral [na série Filhos da Pátria], então acredito que eu consiga imprimir mais forte isso, como eu faço nas coisas que eu fiz fora da televisão. O óculos pelo qual eu enxergo o mundo é assim, com muita música e com essas linguagens das coisas que eu assistia quando era mais novo.

“Eu acho que a novela no Brasil é um hábito cultural, para além de um produto audiovisual. Ela realmente pauta a vida das famílias. Só isso já justifica um pouco a força e a longevidade desse formato. É o bom e velho exemplo da televisão ficar ligada na sala, passar na novela, você ir ao bar, estar ligado na novela. É um hábito, você fica mergulhado naquilo de alguma maneira e, inevitavelmente, aquilo vai esbarrar em você em algum momento.”

Temos discutido muito, principalmente na academia, sobre as mudanças no modo de produzir, distribuir e consumir TV. Na sua concepção como diretor, por que a TV se mantém tão forte diante de todas as mudanças no audiovisual e no hábito de consumo do público?

Eu acho que a novela no Brasil é um hábito cultural, para além de um produto audiovisual. Ela realmente pauta a vida das famílias. Só isso já justifica um pouco a força e a longevidade desse formato. É o bom e velho exemplo da televisão ficar ligada na sala, passar na novela, você ir ao bar, estar ligado na novela. É um hábito, você fica mergulhado naquilo de alguma maneira e, inevitavelmente, aquilo vai esbarrar em você em algum momento. 

Mas acho que essa é uma percepção que, por mais que seja dominante, se alterou muito nos últimos anos, porque acho que as pessoas mais novas não se lembram do que se trata. Não sei como isso vai impactar o modelo de negócio no futuro próximo. Não sei por quantos anos se sustenta esse hábito, do quanto essa tradição vai passar para as novas gerações. Tem gerações que já nem ligam a televisão. Eu acho que existe uma questão, uma visão de que a gente está aqui, agora, tendo essa conversa, numa universidade. 

A realidade é que a banda larga do Brasil é muito ruim, e as pessoas têm um pacote de dados limitado, nem todo mundo está online. Então também não sei até que ponto isso ajuda a reserva de mercado da novela, que está lá disponível, de graça, para quem quiser. Acho que ainda estamos em um período de muita transição. A novela ainda conserva muita força, mas estou curioso para entender como será nos próximos anos.

“Acho que a televisão brasileira já foi muito mais alternativa, progressista e inovadora do que ela é hoje […] Hoje em dia, acho as decisões de formato muito mais conservadoras do que foram nesse tempo e sinto muita falta da ousadia, em um bom sentido, e de uma certa irresponsabilidade. Acima de tudo, eu acho que a televisão subestima o público de uma maneira que ela não subestimava. Essas coisas inovadoras, elas faziam sucesso, e acho que não faziam sucesso só porque eram a única coisa que estava passando na televisão, mas porque realmente estimulavam a curiosidade das pessoas.”

Tentando estabelecer um contraponto com o cenário audiovisual estadunidense, com séries que exploram diversas temporalidades, com personagens tridimensionais, que exigem um esforço cognitivo do público, quase em uma espécie de jogo. Como você vê isso aqui no Brasil? Especialmente agora que a Globo está investindo mais em webséries e em novos recursos audiovisuais.

Acho que a televisão brasileira foi construída em um ambiente de muita inventividade e inovação. Foi muito moderna para a época. Mas acho que a televisão brasileira já foi muito mais alternativa, progressista e inovadora do que ela é hoje. Teria que pensar mais sobre os motivos. Acho que não foi só o envelhecimento de formato, mas acho que, de uma maneira geral, alguma coisa se perdeu. Isso tem que ser repensado, porque a televisão brasileira é tão conservadora hoje em dia. Se você pegar as coisas que eram feitas nos anos 1980 – como Malu Mulher (1979), a primeira versão de O Rebu (1974), em que o roteiro se passava em um dia, ou mesmo programas musicais, tipo Chico e Caetano (1986) – vai ver que coisas incríveis e revolucionárias foram feitas. Hoje em dia, acho as decisões de formato muito mais conservadoras do que foram nesse tempo e sinto muita falta da ousadia, em um bom sentido, e de uma certa irresponsabilidade. 

Acima de tudo, eu acho que a televisão subestima o público de uma maneira que ela não subestima. Essas coisas inovadoras, elas faziam sucesso, e acho que não faziam sucesso só porque eram a única coisa que estava passando na televisão, mas porque realmente estimulavam a curiosidade das pessoas. Acredito que isso é fundamental para levar a indústria toda adiante. Fala-se muito em falta de concentração, que hoje em dia as pessoas se sentem muito desafiadas e acabam perdendo o interesse, mas eu não estou tão convencido disso ainda. 

Posso estar errado, mas sinto falta da televisão voltar a “subir o sarrafo”, deixar menos confortável, menos mastigada a informação, e estimular o público a jogar junto. Acho que o público gosta, na verdade, de contribuir.