Laços de Família 20 anos depois: como o público reagiu?

Pesquisa da equipe UFRGS do Obitel Brasil investigou a leitura da audiência sobre a telenovela no Vale a Pena Ver de Novo, duas décadas após a estreia da exibição original

Há mudanças na percepção da audiência sobre temas sociais representados em uma telenovela exibida duas décadas atrás e reprisada contemporaneamente? Essa é a pergunta que move a equipe UFRGS do Obitel Brasil no artigo “Laços de Família 20 anos depois: apropriações da audiência em tempos de pandemia” (Sifuentes et al., 2021). 

Tendo como base o entendimento de que a telenovela é um recurso comunicativo que constrói narrativas sobre o cotidiano brasileiro e sobre as principais questões sociais, culturais e políticas em pauta no debate público nacional, a pesquisa investiga a leitura que o público faz da telenovela Laços de Família quando a obra é reapresentada aos espectadores 20 anos depois de sua produção e exibição original (entre 05 de junho de 2000 e 02 de fevereiro de 2001), colocando em evidência o contraste entre dois diferentes momentos da sociedade brasileira. 

O vídeo a seguir, coletado pelos investigadores do grupo UFRGS, serve de exemplo para a percepção da audiência sobre os recortes de raça e classe nos conflitos vivenciados pelas duas protagonistas de Laços de Família, Helena (Vera Fischer) e Camila (Carolina Dieckmann):

As expressões “white people problems” (“problemas de pessoas brancas”, em tradução livre) e “gente branca da zona sul carioca” (que deixa implícito que as personagens pertencem à classe alta), nos comentários da postagem, reforçam a crítica daquilo que é esperado em termos de uma representação contemporânea da sociedade brasileira nas telenovelas que esteja mais próxima da diversidade racial, econômica e geográfica da nossa população.

Sobre a metodologia da pesquisa

Para investigar essas transformações, os pesquisadores da equipe UFRGS mapearam as principais temáticas presentes na telenovela Laços de Família e as relacionaram com o que Botelho e Schwarcz (2011) chamam de “marcadores sociais das diferenças” a partir dos tópicos: relações de gênero e sexualidade; maternidade; etarismo; racismo; e relações de classe. 

A pesquisa se utilizou de dois conjuntos de dados para dar conta de sua investigação: um levantamento da circulação dos principais temas abordados na telenovela no Twitter (atual X), Instagram e YouTube, de natureza quantitativa; e, do ponto de vista qualitativo, a realização de entrevistas em profundidade com 20 espectadores – divididos entre pessoas que já haviam assistido à telenovela na exibição original e aquelas que assistiram apenas à reprise no Vale a Pena Ver de Novo durante a pandemia, entre os dias 07 de setembro de 2020 e 02 de abril de 2021.

Novos olhares sobre as relações de gênero

A partir dos dados coletados, foi possível constatar as leituras atualizadas dos espectadores em relação à telenovela, em especial nos temas que tocam as relações de gênero e a condição da mulher na sociedade. O comportamento do personagem Pedro, interpretado por José Mayer, foi um dos mais criticados pelo seu machismo evidente. 

Pedro, personagem de José Mayer, recebeu críticas ao longo da reexibição de Laços de Família.
Fonte: TV Globo

Duas das espectadoras entrevistadas ressaltam como Pedro é tratado de modo “romantizado” em sua relação com Cíntia (Helena Ranaldi) ao apresentar um comportamento que hoje é entendido como abusivo. A informante S (24 anos) aponta que Pedro é machista, enquanto P (66 anos) sinaliza a mudança de percepção sobre as atitudes do personagem: “Naquela época tinha um charme o cara ser assim, ai, pegava e beijava, aquela coisa… até de ciúme, né? […] que hoje é visto diferente” (Sifuentes et al., 2021, p. 200-201).

O comportamento de Pedro também chamou a atenção do público que comentou a telenovela pelas redes sociais, como ilustram as postagens a seguir, compartilhadas no X (antigo Twitter) e coletadas por Sifuentes et al (2021):

Inclusive, a trama de Pedro foi a mais editada e reduzida pela Globo para a reapresentação da telenovela no segmento Vale a Pena Ver de Novo, demonstrando uma atenção da emissora em acompanhar as discussões sociais acerca do machismo e de comportamentos atualmente considerados inaceitáveis. 

Os tópicos maternidade e etarismo também apareceram na pesquisa na intersecção com o recorte de gênero, a partir da construção da protagonista Helena e de sua relação de autossacrifício com a filha Camila e de seu envolvimento amoroso com o personagem Edu (Reynaldo Gianecchini), que, na trama, é muito mais novo do que ela. 

Helena (Vera Fischer), Camila (Carolina Dieckmann) e Edu (Reynaldo Gianecchini) vivem um triângulo amoroso em Laços de Família.
Fonte: TV Globo

Ao responder quais temáticas faziam sentido em 2000 e agora já pareciam datadas, a entrevistada L (33 anos) sinaliza acreditar que a postura de Helena ao anular seus desejos em nome da felicidade da filha seria retratada de forma diferente em uma obra contemporânea. Em relação ao triângulo amoroso formado por Helena, Camila e Edu, a informante H (37 anos) aponta uma crítica à filha por “roubar o namorado da mãe” na exibição original, algo que seria questionado atualmente: “Mas por que tão culpabilizando só a mulher? E o macho dessa relação aí?” (Sifuentes et al., 2021, p. 201).

A pergunta da entrevistada demonstra algumas das transformações na forma como as relações e os papéis de gênero foram tensionados na reapresentação da telenovela. De maneira geral, os informantes entrevistados para a pesquisa acreditam que, apesar de ainda existir muito machismo na sociedade brasileira, as mulheres alcançaram muitas conquistas ao longo dos anos.

Quando questionados se essas mudanças são representadas nas telenovelas, a percepção é que as tramas têm acompanhado sim essas transformações. A entrevistada E (50 anos) argumenta: “hoje a gente vê nas histórias das novelas mulheres que são muito batalhadoras, mulheres que são inteligentes, ricas, que têm os seus negócios, as suas empresas, que estão em cargos de liderança”. (Sifuentes et al., 2021, p. 201).

Esses achados ecoam a percepção de Lopes (2009) quando a autora afirma que as trajetórias das personagens femininas nas telenovelas têm estado no centro das atualizações sociais apresentadas pelas obras da teledramaturgia brasileira.

A (in)visibilidade das questões raciais

Por outro lado, a presença do tema “racismo” não foi identificada explicitamente na trama por uma parcela dos entrevistados, embora alguns deles tenham apontado a presença do tópico na relação com o recorte de classe social, principalmente no caso da empregada doméstica Zilda (Thalma de Freitas). 

Thalma de Freitas fez o papel de Zilda, empregada doméstica de Helena.
Fonte: TV Globo

A personagem é retratada exclusivamente na sua condição de serviço à patroa Helena, e uma das entrevistadas aponta que não há, na telenovela, uma tentativa de crítica a essa relação. Para o informante G (38 anos, negro): “Acho que nessa questão da empregada da Helena, […] tava estruturalmente composto, mas as pessoas não percebiam. Mas, nada muito explícito” (Sifuentes et al., 2021, p. 202).

Ainda assim, existe uma percepção entre os espectadores entrevistados de que, de modo geral, a representação do racismo nas telenovelas mudou ao longo do intervalo de 20 anos que separa as duas exibições de Laços de Família, com destaque para a maior participação de personagens e intérpretes negros na televisão brasileira. O depoimento da entrevistada J (36 anos, negra) é contundente ao abordar a importância das discussões de raça nas telenovelas brasileiras: “Pô, mudou tudo. Antes não se enxergava, agora se enxerga. Há 20 anos atrás sofria racismo toda hora e não identificava. Agora eu identifico” (Sifuentes et al., 2021, p. 203).

Releituras sociais a partir da memória televisiva

Nesse sentido, cabe ressaltar mais uma vez o papel das reprises e dos remakes de obras passadas para que a audiência possa analisar historicamente as transformações vivenciadas pelo Brasil. A reapresentação dessas obras se configura como um dos mais habituais dispositivos de memória da ficção televisiva brasileira, bem como de memória afetiva e nostálgica para o público, ao permitir que a audiência recupere sentimentos e emoções de um tempo passado, vivido com a telenovela no contexto de sua produção e exibição original.

Para o grupo UFRGS do Obitel Brasil, a reprise de Laços de Família “traz à tona conflitos sociais e experiências cristalizados no Brasil do início do século XIX, hoje percebidos diferencialmente, considerando as mudanças na agenda brasileira” (Sifuentes et al., 2021, p. 204). Tal prática é de extrema importância para gerar “novos debates sobre antigas problematizações” (p. 192) de temáticas relevantes para a formação cidadã nacional.

SOBRE A PESQUISA

Título: Laços de Família 20 anos depois: apropriações da audiência em tempos de pandemia

Autoria: Lírian Sifuentes, Laura Wottrich, Nilda Jacks, Daniel Pedroso, Denise Avancini Alves, Erika Oikawa, Fabiane Sgorla, Guilherme Libardi, Joselaine Caroline, Sara Feitosa, Vanessa Scalei.

Publicação: SIFUENTES, L. et al. Laços de Família 20 anos depois: apropriações da audiência em tempos de pandemia. In: LOPES, M. I. V.; SILVA, L. A. P. (orgs.). Criação e inovação na ficção televisiva brasileira em tempos de pandemia de Covid-19. (Coleção Teledramaturgia, Volume 7). Alumínio: CLEA Editorial, 2021. p. 189-207.

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