Pensar a autoria na telenovela marca o grupo de teleficção A-Tevê

A coordenadora da equipe UFBA do Obitel Brasil, professora Maria Carmen Jacob de Souza, relembra o início da pesquisa sobre telenovelas e conta da formação e dos projetos do grupo de pesquisa A-Tevê

Maria Carmen Jacob de Souza é professora da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, além de coordenar a equipe UFBA do Obitel Brasil. Sua trajetória começou com a graduação em Serviço Social, passando pelo mestrado em Educação e pelo doutorado em Ciências Sociais.

Ainda na UFRJ, durante o período da dissertação, a docente entrou em contato com a pesquisa sobre telenovelas. A partir de então, continuou se aprofundando no tema e criou, na UFBA, o grupo de pesquisa A-Tevê, no qual estuda, juntamente com orientandos e outros pesquisadores, a teleficção. Nesta entrevista do Papo Obitel, concedida à pesquisadora da equipe UFPE do Obitel Brasil, Gêsa Cavalcanti, Maria Carmen conta mais sobre sua trajetória nesse campo acadêmico.

Como foi seu primeiro contato com a telenovela enquanto objeto de pesquisa?

Minha dissertação de mestrado foi sobre o uso do vídeo nos movimentos sociais, e eu fiz uma análise do modo como esses recursos eram criados e usados nos movimentos. Antes de terminar a dissertação, fui professora pesquisadora do serviço social da UFRJ e tinha, quando eu entrei, uma professora chamada Marilena Jamur, cientista social e assistente social, que estava desenvolvendo uma pesquisa que se chamava Representação da Pobreza na Imprensa e na Telenovela. Ela me chamou para coordenar essa parte do núcleo de telenovela, e eu comecei do zero. Como eu vinha da minha dissertação com uma referência forte de Bourdieu, de Canclini, comecei a construir minha pesquisa a partir desses autores. Pude fazer um levantamento das novelas na época, e a Globo era a que mais oferecia dados, então a gente começou a trabalhar com as novelas da Rede Globo. Desde então, trabalho com isso. 

Quando fui para o doutorado, já tinha identificado que as representações de pobreza eram diferentes a depender de quem escrevia e dos horários da novela. E, aí, tem a referência de Bourdieu nos ajudando a perceber essa relação, de pontos de vistas de determinados temas e modos de narrar. E, então, acabo chegando no Benedito Ruy Barbosa no doutorado. Quando termino, saio com uma bolsa do CNPQ que eu já tinha submetido assim que fui aceita, então já fui para UFBA enquanto pesquisadora e trazendo a minha pesquisa de doutorado. 

Ao montar o grupo de pesquisa, eu monto com essa bagagem. As pesquisas que eu trazia tinham a ver com a questão da autoria, ou seja, como é que se pensa a autoria na telenovela, e uso a noção de campo para me ajudar nisso. O grupo vai fazer 20 anos agora, realmente é muito tempo. Estou em um grupo de pós-graduação que é realmente um centro de formação de pesquisa. Temos reuniões semanais com os orientandos, para atividades gerais e de desenvolvimento de pesquisa, além das orientações individuais. Aceitávamos sempre a iniciação científica, as orientações de TCCs nossos e de outros colegas. Só que a novela não é um objeto muito querido, do ponto de vista de quem entrava no programa. No início, inclusive, eu orientei pessoas que não tinham nada a ver com a novela. Orientei gente vinculada ao cinema, a programas de auditório, minisséries e adaptações de minisséries. 

Com a minha entrada no Obitel, em 2006 e 2007, surgiram algumas dissertações dessa experiência com novelas, que foi a de Amanda [Aouad] e a de Larissa [Paim], que eram da minha equipe do Obitel. E era uma questão de estratégia mesmo, trazer a ficção seriada de um modo geral, não só as novelas. Apareceu uma galera muito interessante trabalhando ficção seriada, HQ, e o grupo teve uma outra guinada. Abordamos ficção seriada, transmídia, construção de mundos, serialidade, que é o grande eixo norteador da nossa reflexão.

O grupo foi ficando muito interessante. As pesquisas são compartilhadas no grupo e temos temas e questões que trabalhamos por semestre. Tem os orientandos que, agora, já são professores e fazem exercícios analíticos pensando as questões de cada um dos pesquisadores. Teve também uma colega minha que fez o pós-doutorado comigo, então ela me animou e a gente fez um evento chamado SERIAIS [Seminário Narrativas Seriadas – Ficções Televisivas, Games e Transmídia], muito legal.

Evento SERIAIS, organizado em 2019. Fonte: A-Tevê

O SERIAIS foi organizado pelo A-Tevê [Laboratório de Análise de Teleficção]? 

Sim, a organização foi nossa com uma comunidade que trabalha com games há muito tempo. O grupo foi entender sobre séries, principalmente essas relacionadas a games, com adaptação ou recriadas. Eu gosto muito – acho que é o meu lado assistente social – das atividades de extensão. Tínhamos muitos roteiristas no grupo e montamos uma atividade de extensão que se chama Estação do Drama. Isso foi em 2014 e ainda estamos com ela. Em 2017, fizemos o Usina do Drama, que é a parte do desenvolvimento do projeto. Agora estamos na Usina 2.0, pensando na formação de roteiristas. Tem uma seleção e, no final, eles têm a bíblia da série e o projeto piloto. 

Também há cursos que são dados pela equipe do A-Tevê, e temos essa versão agora que chamamos de LABITEC. São experiências de análise de produtos, de circunstâncias de case, para entender por dentro essa dinâmica mais complexa que envolve as narrativas transmídia (…). Essas experiências todas são fruto das especialidades das pessoas que passam pelo grupo. 

(…) Ter a telenovela como objeto na relação com outros produtos enriquece quem está trabalhando com novela também. Então nesses últimos quatro, três anos, é que tem um grupo de telenovela mesmo. Hoje temos Genilson [Alves], que trabalha a comunicação estratégica da Globo, a Thaiane Machado, que está examinando o modo como o consumidor de novela está migrando para o Globoplay, e Tcharly [Briglia], que está terminando o mestrado, fazendo um trabalho sobre a construção das histórias dos roteiristas e os impactos da ambiência digital.

O Obitel talvez tenha sido a melhor oportunidade de fazer o meu grupo entender e trabalhar com a novela. Mas como no Obitel não escolhemos os temas, fazíamos uma leitura desse tema e da escolha de pesquisa, tentando considerar os interesses de quem estava no grupo naquele momento. Na realidade, eu tinha muito mais gente interessada na telenovela na graduação do que na pós-graduação. E aí eu abri o leque como estratégia de sobrevivência. Você vai com aspectos que estão associados e cria uma certa diversidade de abordagem dentro do grupo.

“Ter a telenovela como objeto na relação com outros produtos enriquece quem está trabalhando com novela também.”

O que mais mudou na dinâmica de pesquisa da ficção seriada nesse percurso?

Acho que há uma presença muito forte de alguns autores estadunidenses, como [Jason]  Mittel. Aliás, no campo da Comunicação como um todo, as referências aos textos internacionais foram ficando muito fortes. A própria reflexão sobre estilo e autoria cresceu muito também. 

Eu tenho um artigo em que eu falo das aventuras e desventuras da pesquisa sobre telenovela, onde eu conto da minha viagem do Rio para Bahia. Boa parte da minha mudança era material de pesquisa, revistinha da TV, caixas de VHS imensas. Eu tentei fazer a passagem para DVD, mas a mudança de tecnologia foi muito rápida. Foi disso para o streaming e para os downloads. É muito melhor e mais fácil você trabalhar hoje. A Globo investiu muito nisso, pois fortaleceu a interface com o pesquisador com a Globo Universidade. Nos encontros do Obitel, uma coisa muito legal para a gente que estuda teledramaturgia é poder lidar mais próximo com os depoimentos de quem está com a mão na massa.

Você lembra da participação no primeiro GT de Telenovela da Intercom?  

O primeiro que fui foi em Sorocaba ou Piracicaba. Tem uma figura muito importante da telenovela que foi João Luiz Van Tilburg. Os arquivos que ele tinha na casa dele, o material impresso sobre novelas, eram uma preciosidade. O sonho dele era transformar esse material em um acervo de consulta, e isso existe, chama TV Pesquisa. O que você encontra lá é uma coisa maravilhosa. Eu não lembro se ele estava na Intercom em 1994, mas ele estava em outro lugar importante para trabalhar a novela, que é o GP de Recepção da Compós. Ele era um dos coordenadores do GP na época e, durante um bom tempo, esse lugar de discussão da telenovela foi esse GP de Recepção.

E era o único lugar?

Era o que tinha o maior volume, provavelmente. Depois uma coisa ou outra vai aparecendo. Hoje, você tem essa coisa maravilhosa de ter uma escritora de novela que é doutora em Comunicação [Rosane Svartman]. Faz toda a diferença, porque já é uma celebridade e tem uma disponibilidade também para o pesquisador, o que é muito legal.

Rosane Svartman no evento USP Pensa Brasil. Fonte: Cecília Bastos/USP Imagens

Nesse cenário em que a Compós era o principal lugar de debate da telenovela como objeto de pesquisa, o que significou a criação do GP de Ficção Seriada da Intercom? 

O GP de Ficção Seriada era excepcionalmente bem organizado e foi um outro lugar importante para garantir um espaço de produção sobre a telenovela, ficção seriada e teledramaturgia, sem dúvida nenhuma. Eram poucos espaços aqui, nacionalmente. Immacolata [Vassallo de Lopes] é uma figura muito capaz de mobilizar espaços em redes internacionais, então é um baluarte na defesa de um espaço de análise de um produto que, por ser comercial, tem um campo científico pouco acolhedor para pesquisas que lidam com esse tema. A novela, pelo menos, tinha uma contribuição política que podia se diferenciar, mas, durante muito tempo, eu diria que não se acreditava que podia sair dali pesquisas sérias. Eu não sei se isso ainda existe. Claro que sempre terão alguns segmentos que vão continuar assim, mas acho que isso mudou muito.