Professora e pesquisadora Silvia Borelli fala sobre as telenovelas no campo acadêmico

Em entrevista, Borelli conta sobre seu percurso de pesquisa com as telenovelas e discute a aceitação dessas obras como objetos culturais legítimos

As telenovelas foram objetos recorrentes nas pesquisas de Silvia Borelli (PUC-SP). Com livros como Vivendo com a telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade (2002) e A deusa ferida: porque a Rede Globo não é mais a campeã absoluta de audiência (2000), Borelli se debruçou sobre a produção, a narrativa e a recepção das novelas. 

Mas a atuação da professora e pesquisadora vai além: ela ainda navega pelas áreas da Sociologia, Antropologia e Comunicação, com trabalhos que não se limitam à ficção televisiva. Nesta entrevista do Papo Obitel, feita pela pesquisadora da equipe UFPE do Obitel Brasil, Gêsa Cavalcanti, Silvia Borelli explica sua trajetória na pesquisa sobre telenovelas. Ela ressalta a importância da perspectiva dos Estudos Culturais nesses trabalhos e comenta sobre os tensionamentos nos campos do saber ao se falar em telenovelas como objetos culturais legítimos.

Como foi seu primeiro contato com a telenovela enquanto objeto de pesquisa?

O Renato Ortiz fez uma proposta de um projeto para FINEP e nós passamos pelo menos dois anos pesquisando. Era um projeto de mais longa duração, que tinha por pressuposto o mapeamento da produção e da narrativa. Se falava ainda muito timidamente da questão da recepção, tanto que, na verdade, não foi feita a recepção. Esse trabalho tinha por objetivo pensar a importância da telenovela brasileira na cultura brasileira. E foi interessante, porque foi um projeto dentro do campo da sociologia.

O primeiro contato foi pensando essa ideia do Bourdieu de campo, se a telenovela entrava ou não entrava numa perspectiva de campo cultural. Ao mesmo tempo, tinha uma dimensão Frankfurtiana da indústria cultural. Esses eram os dois balizadores dessa pesquisa, que resulta num livro: Telenovela: História e Produção, lançado em 1989. Nesse livro, teve mesmo uma coisa muito forte da história da telenovela. 

Eu e algumas outras pessoas estávamos tentando trabalhar um pouco a contrapelo dessa recusa do campo das ciências sociais de compreender como cultura os produtos da indústria cultural ou da cultura de massa. Ou produtos que tinham essa perspectiva de uma mescla, de um mix da cultura popular com a cultura massiva. Nesse meio tempo, comecei o contato não só com a literatura popular americana, mas também com alguns autores fundamentais como Jesús Martin-Barbero, que se transformou, com o passar dos anos, em uma pessoa próxima.

O Barbero vinha da filosofia, discutindo o popular de massa. Isso foi abrindo pra mim a possibilidade de manter esse tensionamento no campo das ciências sociais. A antropologia é menos severa com os produtos populares, mas há ainda um pouco dessa reação contra produtos massivos. Eu comecei, então, a fazer um trabalho que era me manter trabalhando dentro desse campo das ciências sociais, com essa tensão de objetos que seriam considerados ou não como legítimos da cultura.

Eu fui orientando trabalhos de mestrado e doutorado dessa perspectiva de fronteiras, de objetos de estudo que estavam tensionando essa dimensão de ser considerado cultura ou não. É um diálogo mais crítico com Frankfurt que os Estudos Culturais ingleses me permitiram, de como que seria ou não possível a existência de brechas dentro do esquema da indústria cultural. Um esquema da indústria cultural não mais tão rígido, fechado, sem a possibilidade, ou seja, sem pactuar com o conceito da ideologia intrínseca que está no Adorno, e mais com a perspectiva Gramsciana do campo cultural como campo de luta, dos Estudos Culturais ingleses, da construção das hegemonias e contra hegemonias.

“A antropologia é menos severa com os produtos populares, mas há ainda um pouco dessa reação contra produtos massivos. Eu comecei, então, a fazer um trabalho que era me manter trabalhando dentro desse campo das ciências sociais, com essa tensão de objetos que seriam considerados ou não como legítimos da cultura.”

Então eu abri, daí pra frente, toda uma produção de artigos voltados para a questão do gênero ficcional e para ampliação teórica desse tensionamento. E aí vem esse grande projeto de recepção de telenovela, que gera o livro Vivendo com a telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade. A Immacolata [Vassallo Lopes] me convida e convida a Vera Rezende, e nós montamos esse grande projeto que durou vários anos.

Mas, teve um intercurso aí nesse meio de caminho, que foi o Gabriel Prioli. Ele foi chamado para um projeto de análise das condições da Globo, que visava entender o que era a Globo. Esse projeto gera o livro A deusa ferida: por que a Rede Globo não é mais campeã absoluta de audiência. Foi uma coisa muito interessante, nós montamos uma equipe muito grande. Prioli e eu coordenamos. 

A gente foi mapeando o início de, digamos assim, o fortalecimento das culturas digitais, com o aparecimento da internet, e foi ampliando toda uma discussão sobre o espaço público nas cidades, que, de certa forma, tendiam a ampliar o lugar das praças, esquinas, dos bares. Também discutimos o próprio modelo engessado, enrijecido, da Globo: aquele sanduíche do horário nobre, novela, jornal, novela. É uma coisa que sempre deu certo, que continuava dando uma grande audiência, mas que, de qualquer maneira, estava sofrendo um revés absurdo.

Já o trabalho de recepção de telenovela foi um trabalho incrível. Foi um processo de integração dentro da academia com três universidades envolvidas: a USP, a UNESP e a PUC. Pegamos essa perspectiva da etnografia e fizemos os eixos da vídeo tecnologia, do cotidiano e do gênero ficcional. De certa forma, a gente conseguiu articular a perspectiva da cultura na vida cotidiana. Fomos atrás dos receptores, e a nossa aproximação com os Estudos Culturais latino-americanos foi rapidíssima e densa. Tanto que o Jesus Martin Barbero escreve o prefácio do nosso livro. 

Essa minha trajetória mistura os teóricos, as articulações institucionais, os campos. Daí para frente, participei de vários projetos relacionados à infância e à juventude. Nunca abri mão  dessa perspectiva da antropologia, do trabalho de campo, que é ir saber com as pessoas envolvidas. Ou seja, só faz sentido saber se a telenovela é cultura ou não se a gente envolver o receptor, que nos diz se ela faz parte da sua vida cotidiana. 

O que significava estudar telenovela naquele momento e como era aceito?

É muito tranquilo no campo da Comunicação. Se você perceber toda a minha trajetória de currículo Lattes, ela está muito na Comunicação. A minha produção ficou voltada muito fortemente para esse campo. Nas Ciências Sociais, isso é O.K. também, mas há sempre a pergunta: é cultura ou não é cultura? Vou te contar um episódio que responde a pergunta. 

Teve um projeto que tinha um pessoal em Barcelona, em Paris, em Córdoba e em São Paulo, e eu fui chamada. O projeto propunha uma análise das campanhas de prevenção da AIDS, aquelas campanhas mundiais. Daí, conheci uma professora que era uma argentina exiliada e que permaneceu em Paris, íamos trabalhar juntas. Fui para Paris e, num jantar na casa dela, ela convidou uma antropóloga da Paris 8. Eu estava estudando telenovela. A primeira pergunta que veio da antropóloga: “mas isso é Antropologia?”. Era uma antropóloga de uma formação em Paris, da Ècolle.

Mas acho que a gente pode encontrar essa reação até hoje, tá? Tanto no campo literário quanto no campo das Ciências Sociais. Porque, no fundo, a telenovela é o produto que suponho que, ainda hoje, seja um dos produtos mais rentáveis da televisão brasileira. Então ela é indústria cultural. Do ponto de vista de uma reflexão sobre campo, ela está no zero capital simbólico. No campo da sociologia também, porque é midiático total. A telenovela, sem dúvida, deve continuar sendo isso, então eu acho que o preconceito vem muito daí, de não ser cultura e não ser literatura. A dimensão do que é cultura e do que é literatura está muito vinculada, no caso da cultura, com a cultura civilizatória e, no caso da literatura, com a literatura culta.

Existiam trabalhos anteriores? Quem estava estudando telenovela? 

Na Sociologia tem um trabalho interessante. Quando começamos, já tinha esse trabalho da Ondina [Fachel Leal]. Mas a pesquisa Telenovela: História e Produção foi marcada como um trabalho pioneiro. Tinha muito pouca coisa na época. Não vou dizer para você que não tinha, a gente usou e a bibliografia está lá. Você vai ver trabalhos anteriores na nossa bibliografia do Telenovela: História e Produção, mas ele foi, inclusive, taxado de pioneiro por isso. 

“Eu acho que o preconceito vem muito daí, de não ser cultura e não ser literatura. A dimensão do que é cultura e do que é literatura está muito vinculada, no caso da cultura, com a cultura civilizatória e, no caso da literatura, com a literatura culta”

Acredita que a pesquisa em telenovela contribuiu no processo da caracterização da telenovela enquanto gênero?

É muito difícil a gente dizer quem veio primeiro: o ovo ou a galinha. Eu sempre prefiro trabalhar com coisas acontecendo concomitantemente, e uma vai reforçando a outra, reiterando, legitimando esse processo. A Globo se preocupou em dar respaldo para estudos acadêmicos relacionados à telenovela. Não só estudos acadêmicos no Brasil, mas estudos acadêmicos da telenovela internacionalmente constituídos. 

Acho que o Obitel é muito isso e tem uma legitimidade incrível, porque faz um trabalho seríssimo do ponto de vista acadêmico. A Globo entendeu como é extremamente importante essa legitimidade no campo acadêmico. Eu diria que é muito difícil pensar politicamente sem pensar nessas trocas, que, obviamente, são do ponto de vista da indústria cultural. O selo da academia é outro. 

Do ponto de vista da produção acadêmica, é bom ter portas abertas para poder fazer etnografias, entrevistar produtores. Estou falando dos casos mais recentes, pois, quando fizemos Telenovela: história e produção, não tivemos nenhum vínculo com a Globo. Fomos diretamente nos autores, diretores, conseguindo por “N” vias. Mas todo o trabalho do Obitel é um trabalho de interação entre indústria cultural e academia. Eu acho que as coisas acontecem ao mesmo tempo para mim.

Gênero ou formato?

Gênero, produção e recepção. Peguei os três eixos que definem o contexto da telenovela. Mas, não sei te responder. Essa foi uma coisa que o Obitel se debruçou como debate intelectual. Eu trabalho com o conceito de forma histórica do Raymond Williams e, dentro da forma, se tem vários eixos possíveis de trabalhar. Agora, esse debate era permanente nos congressos de Comunicação. Não sei se já chegaram em algum acordo.

No livro Telenovela: História e Produção, vocês trabalham com fases da telenovela até meados dos anos 1980. Nesse intervalo entre a publicação e o período que continuou analisando telenovelas, acha que existe uma caracterização nova? A telenovela mudou?

Você só consegue responder se fizer uma progressão. Não dá pra ficar no hiato e tentar falar até ali, porque você não vai conseguir chegar. Eu acho que não seria correto eu te dar essa resposta com três anos de ausência. 

Na sua opinião, o que faz com que a telenovela permaneça enquanto gênero?

Vou te responder com três eixos que são os eixos que eu acho fundamentais: a produção, a narrativa e a recepção. Do ponto de vista da produção, ela é uma produção muito competente. Realmente, o padrão de produção da telenovela da Rede Globo marca uma legitimidade, uma competência de produção inigualável. Estou falando da telenovela da Globo, porque não estudei outras e, com certeza, não é o mesmo padrão. Estou falando de padrão de produção, a tecnologia, enfim, tudo que envolve o figurino, o cenário e toda a perspectiva dessa competência de diretores, de autores. Agora, desde que a produção de séries da Globo, por exemplo, ocupou o espaço, eu não sei se caiu ou não caiu a produção da telenovela.

Do ponto de vista da narrativa, ela está ancorada na perspectiva de uma narrativa popular mítica, do conto de fadas, do melodrama, ou seja, ela está enraizada. Não é uma narrativa literária, como diz o Barbero, ela é uma matriz cultural. Se ela fala de sofrimento, de melodrama, ela está enraizada no imaginário popular. Tem uma dimensão de matriz cultural que conversa a despeito das classes sociais, a despeito do gênero, masculino e feminino. Essas matrizes culturais do melodrama, da aventura, do erótico, da comicidade, elas formatam as raízes do nosso imaginário, e esse imaginário está na literatura, no cinema, na fotonovela, nos gibis, nas HQs, está em todas essas produções. Então, a narrativa se ancora em matrizes que são culturais e que atravessam o tempo.

E o terceiro é a perspectiva do receptor. Há um pacto de leitura do receptor com a narrativa e com uma boa produção. Esse pacto, que alguns chamam de pacto de leitura, na área da Literatura se chama pacto bibliográfico. Há o que Barbero chama de um repertório compartilhado. Então, a aderência do público não é porque o público gosta de porcaria ou porque os receptores gostam de coisas que não tem sofisticação, é porque esse pacto é construído na vida cotidiana desses receptores. Eles vivem isso, seja na periferia, seja nos condomínios. Essa vida cotidiana está articulada, por isso eu disse que não gosto de falar quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. Essa articulação se dá ao mesmo tempo e é uma matriz cultural que atravessa as classes sociais. 

Obras citadas:

BORELLI, Silvia Helena Simões; LOPES, Maria Immacolata Vassalo; RESENDE, Vera. Vivendo com a telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade. São Paulo: Summus, 2002.

BORELLI, Silvia Helena Simões; ORTIZ, Renato; RAMOS, José Mário Ortiz. Telenovela: história e produção. São Paulo: Brasiliense, 1989.

BORELLI, Silvia Helena Simões; PRIOLLI, Gabriel. A deusa ferida: porque a Rede Globo não é mais a campeã absoluta de audiência. São Paulo: Summus, 2000.

LEAL, Ondina Fachel. A leitura social da novela das oito. 1983. UFRGS: Porto Alegre, 1983. 167 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Curso de pós-graduação em Antropologia, Política e Sociologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.