“A novela é uma fotografia do tempo”: reflexões de Bruno Luperi sobre o remake de Pantanal

Na abertura do IX Encontro Obitel Brasil, Bruno Luperi reflete sobre memória, autoria e as transformações sociais que orientaram a releitura de Pantanal para a televisão contemporânea.

Obitel Brasil / 1 de março de 2026

Autor dos remakes de Pantanal (2022) e Renascer (2024), Bruno Luperi comentou os desafios de reescrever a obra de seu avô

Entre 24 e 26 de novembro de 2025, o Obitel Brasil realizou, na PUC-Rio, seu IX Encontro Nacional. A conferência de abertura foi dedicada à análise do remake de Pantanal (TV Globo, 2022), releitura do clássico criado por Benedito Ruy Barbosa, e seu papel na promoção de temáticas cidadãs.

Mediada pela professora Ana Paula Goulart (Obitel UFRJ), a mesa contou com a presença do autor Bruno Luperi, responsável pela nova versão exibida pela TV Globo. Nesta primeira parte da conferência — aqui transcrita — Luperi reflete sobre os desafios de atualizar a obra à luz das transformações sociais das últimas três décadas, abordando questões como raça, gênero e meio ambiente, além de discutir os limites entre respeito ao original e reinvenção dramatúrgica.

A íntegra do encontro está disponível no canal do Obitel Brasil no YouTube.

Ana Paula Goulart: Pantanal, da Manchete, foi um marco na história da teledramaturgia brasileira, e depois veio o remake. E foi um outro grande sucesso, o que nem sempre é garantido. Fala para a gente desse desafio, como foi o processo, e como foi para você também esse retorno de público, crítica.

Bruno Luperi: Primeiro, quero agradecer imensamente ao convite. Não posso nem encontrar palavras para dizer o quanto fico feliz em ver que a novela atingiu esse ponto e foi objeto de estudo, foi tão discutido aqui na academia. Só posso dizer que são esses momentos que dão a sensação de que o trabalho foi bem feito.

Uma vez conversando com Murilo Benício, quando fui conversar com ele para fazer a novela, ele falou para mim: “Mas por que a gente ia fazer isso? O que a gente pode ganhar mexendo numa novela que já foi um sucesso estrondoso? O melhor que a gente fizer vai bater no resultado que ela foi, então a chance de sucesso é muito curta, né?”

Mas comecei a contar sobre o personagem, sobre a releitura, sobre a importância que aquela nova versão teria. Sobre o quanto a sociedade tinha caminhado e o quanto isso estava a favor de uma releitura dessa obra. O quanto esses 30 anos que passaram modificaram o Pantanal e como eu enxergava a nossa função enquanto agente nesse processo todo.

Acho que toda história tem mil histórias por trás. Pantanal nasce de um sonho do meu avô. Ele tentou, durante nove anos, fazer a novela dentro da Rede Globo. Encontrou muita resistência lá dentro, porque o sonho dele era filmar in loco, era ir para campo e trazer o Pantanal para o Brasil. Não era só se apropriar da imagem do Pantanal, recriar um Pantanal em cidade cenográfica. Era um projeto muito ambicioso.

Tinha nascido de uma visita que ele fez ao Pantanal, a convite de Sérgio Reis, E na primeira noite ele não conseguiu dormir, porque estava dormindo numa cabana com um piloto de avião. Ele ligava o ventilador, o piloto desligava, ele ligava, o piloto desligava. Uma hora ele encheu o saco, pegou a cadeira, a manta, pegou uma espreguiçadeira, pôs na beira do rio.

E ficou olhando assim, bestificado pela beleza daquele lugar, pelos sons.
Ele falou que quando amanheceu, foi como se Deus tivesse feito “um, dois, três”, mexido a batuta dele, e a natureza tivesse acordado junto. Os pássaros bateram em revoada, o Pantanal acordou e ele testemunhou tudo aquilo. Aí quando Sérgio Reis saiu, falou, “pô, você tá maluco? O que você tá fazendo aí? Uma onça vai te pegar, sucuri, você não tem noção”. E ele falou: “Sérgio, eu vou escrever uma novela aqui que vai parar o Brasil”.

E essa novela ele escreveu. Chamava-se O Amor Pantaneiro. Ele tentou durante nove anos fazer essa novela dentro da Globo.

Ela apresentava muitos desafios e alguns deles são meio caricatos quase. Boni falava, “não, atriz da Globo não mija no mato, não tem condição de fazer essa novela, não tem como produzir”. Eles foram duas vezes ao Pantanal e uma das vezes eles foram na época da cheia. “Só tem capivara aqui, não tem mais bicho nenhum, não tem onça, não tem nada que você tá falando no papel”. Então, ele ficou nesse processo.

Depois de passado muito tempo, a Manchete o convidou para a emissora.

Ele era o autor da 18h, e, naquele momento, Boni tinha essa visão muito clara do horário da seis. É a base da pirâmide. Meu avô fazia novelas que davam certo sucessivamente, então ele não podia arriscar um autor da seis que conseguia entregar uma audiência de dramaturgia tão boa para a sequência da grade. E aí meu avô falou: “quero fazer essa novela”.
Boni falou para ele, “vai, quebra a cara e volta, porque essa novela vai ser um fracasso”.

Então, ele foi para a Manchete fazer Pantanal, mas com esse desejo de ter feito a novela na Globo e fez a novela. A novela literalmente estava certa para o Brasil.

Meu pai, na época – eu era bem novinho, eu tinha dois anos – trabalhava na Embraer e fazia parte do sindicato. Ele conta que as reuniões do sindicato paravam para assistir à novela. Esse foi um fenômeno que a gente não vai ver mais, né? Que é uma novela analógica, num mundo onde todo capítulo era um capítulo inédito, não tinha essa possibilidade de a gente rever aquele capítulo – salvo as pessoas conseguiam gravar, mas gravar também era uma odisseia, conseguir configurar vídeo, pega fita, some a fita, consegue, não consegue, enfim, tudo poderia acontecer. Então, ela ainda é uma novela desse mundo, desse universo.

Quando eu recebi esse desafio, Schroder, na época, ligou, porque tinham muitas questões burocráticas e contratuais para serem negociadas. O que me fez entender de que era realmente algo maior do que eu – eu estava numa novela em pré-produção, no capítulo 40 e a pandemia tinha fechado os estúdios – foi porque o Schroder falou para mim uma coisa que ficou muito marcada. Ele falou: “a gente precisa pagar uma dívida histórica que a gente tem com o seu avô. Ele propôs essa novela aqui dentro, ele quis fazer essa novela aqui dentro”. A gente estava num momento já de fim de contrato do meu avô, era uma negociação final de contrato. Então foi esse o espírito que se imbuiu na novela do começo ao fim. E para isso eu topei.

Lógico que também não precisava de grandes coisas para topar. Apesar do desafio sempre parecer uma loucura, é uma oportunidade única. O trem parou na frente. Mas para isso eu topei parar e redesenhar o meu cronograma, minha ideia de carreira.

E foi muito interessante porque voltar ao Pantanal. Eu voltei ao Pantanal que eu vi na TV, mas o Pantanal foi uma promessa que meu avô fez para a gente a vida inteira. Uma promessa de campanha, eu brinco, porque ele sempre jurava que ia levar todos os netos para o Pantanal e nunca levou. Então, passados 32 anos de vida, de promessas que não se cumpriam, fui para o Pantanal a primeira vez e tudo foi muito mágico. Acho que a gente foi muito agraciado. A Globo foi muito feliz na decisão, nas pessoas que ela trouxe para participarem do projeto.

Quando a gente encostou o carro, a gente estava discutindo “onde é que vai gravar, onde é que vai ser a fazenda, onde é que faz, onde é que não faz”. Quando a gente encostou o carro na fazenda Rio Negro – ela era de uma família, foi vendida, foi para um projeto de conservação, depois foi para uma outra pessoa. Quando a gente parou na porta, descemos da picape, a gente olhou e parecia que o José Leôncio ia descer ali para receber a gente. “Poxa, esse cara mora aqui”.

Aí depois a gente foi na casa de Almir, que eu conhecia das festas, de alguns encontros familiares, mas conhecia distante. Festas do Rei do Gado, todo mundo lá conversando, ele num cantinho fumando um cigarrinho de palha, e eu tinha aquele registro daquele cara meio… que a gente tem na TV assim, né? Um cara meio mágico, meio místico.

E aí quando a gente parou na casa dele, ele começou a conversar. A gente só ia almoçar. Ele falou: “ah, fica pro jantar”. “Não, não, a gente tem que andar mais, a gente vai jantar, a gente vai passar aqui a noite pra voltar pro hotel”. Ele falou: “ó, o Jaime rodou isso aqui inteiro e acabou aqui. Vocês vão andar, andar, andar, vocês vão acabar aqui. Essa é parte mais bonita do Pantanal”. E ele tinha razão nisso, porque talvez tinha ali um… as raízes do que foi essa primeira versão.

Também partiu muito disso, partiu de um respeito da Globo, de entender que aquele remake era mais do que uma obra. Mais do que uma ação oportunista de fazer um sucesso, era uma oportunidade de prestar um tributo para um autor que é um precursor, é um dos gênios do gênero, um dos imortais da televisão.

Acho que partiu de um desejo muito legítimo nesse sentido. Partiu de uma humildade muito grande minha, da direção, da produção, de fazer um trabalho à altura e que respeitasse. E sem esse interesse de deixar pegadas nossas, de assinar embaixo, de alguém buscar uma autoria.

Foi um trabalho muito feliz nesse sentido. Acho que conseguiu conciliar todas essas esferas que uma novela tem que ter. Era uma boa história, era um momento oportuno. Acho que o que moveu a gente foi uma coisa muito legítima. E quando o público recebeu aquilo foi muito legal. Porque ele foi recebendo em dose muito homeopática, né? Ficou um tempo ali a discussão de quem seria Juma, e nossa escolha foi muito feliz e acertada de trazer Alanis.

Rosane Quintaes, que infelizmente não está mais aqui com a gente, foi uma produtora brilhante de elenco. Se eu for pontuar pessoa a pessoa, todas as pessoas que se envolveram com o projeto, foram imbuídas desse mesmo espírito. É uma obra muito grande, temos que respeitar a obra, temos que respeitar o trabalho que a precede e tentar, de alguma maneira, ir daqui para frente.

Brinco que o meu trabalho foi ler a novela inteira, assistir ela inteira. Desconectar a novela inteira como se fosse um avião, desmontar esse avião inteiro e remontar ele de forma que ele voasse e fizesse um voo tão bonito quanto, mas que as pessoas que vissem esse voo falassem, nossa, é o mesmo avião. Mas não era.

Foi muito legal, porque tem essa parte toda moral, a parte de lei. Por exemplo, muitas coisas que José Leôncio fazia na primeira versão da novela hoje são tipificadas em lei – abuso de vulnerável, cárcere privado, então isso é muito delicado. Você não pode pôr isso no protagonista. Isso pode existir, mas se estiver no protagonista, tem que ser, de alguma maneira, sob a luz do que a nossa sociedade compreende hoje. A novela tem essa responsabilidade social e moral. Toda essa delicadeza de ressignificar as coisas, de reencontrar, de entender que esse personagem, esse cara, é o protagonista e não pode deixar de ser. Não vou transformar ele no bandido por uma vaidade minha. Eu vou entender que ele é um cara apaixonado, um cara que tem as suas limitações intelectuais, que é formado pelo seu contexto, que é um produto da sua cultura e do lugar em que ele estava.

Eu acho que a novela foi toda feita muito nesse esmero. Saber que ela atingiu esse resultado, foi um sucesso de audiência, foi um sucesso de crítica, foi uma novela que as pessoas se sentiram representadas por ela. As pessoas são muito más nas redes sociais, mas para mim nunca chegou essa coisa de “ah, você roubou a história”. Então acho que cumpriu o seu papel e cumpriu a sua função.

Ana Paula Goulart: Você estava falando de, por um lado, essa questão do respeito à obra, a obra de seu avô, que tem todo um universo muito específico e muito marcante. Mas, ao mesmo tempo, é uma atualização.

Queria pedir para você falar de três aspectos que eu acho que são importantes na atualização. Você tem, por exemplo, a questão racial, que é atualizada a partir do núcleo da segunda família do Tenório. Não era uma família racializada na original, não era uma família negra. No remake, foi introduzido dessa forma. Então, conta pra gente um pouquinho sobre isso.

Bruno Luperi: Para uma novela ser pertinente, ela tem que andar com duas pernas. Uma perna no respeito, que é uma obra que te precede. O intuito dessa novela era falar sobre quanto é urgente a gente olhar para o nosso mundo e cuidar do mundo, cuidar da natureza, ressignificar o nosso olhar.

Mas nessas transformações inteiras, o mais irônico é que, na época do meu avô, esse pecuarista era o cowboy, ele era o herói. No meu tempo, esse cara é o cara mais execrado, é o cara do agro, o maior vilão. O cara que tá pisando muito mais perto da vilania do que do heroísmo. Então, essas batalhas todas tiveram que ser tratadas e lutadas.

Entendo muito a novela como uma fotografia do tempo. Minha função enquanto autor não é apontar o certo, é apontar o retrato. E aí eu acho que a gente junto discute essa sociedade, discute esse panorama. O meu trabalho aqui é ser honesto. A máquina não escolhe quem é o fotógrafo. Ela tira uma foto, estão todos ali. Então acho que o meu maior trabalho inicial é entender se todos estão ali. E nesses todos estarem ali, Tenório e José Leôncio se encontravam muito mais nessa versão do que na versão anterior.

Eles eram muito mais próximos, talvez, dos vilões – trazendo a novela da versão original, como ela era, com os valores morais dela para o dia de hoje. E aí eu fui tentar entender esse cara sob o olhar político que a gente tinha naquele momento no Brasil. Um Brasil muito dividido, muito polarizado. E eu defini no meu coração que eu não tenho nenhum problema com conservadores, eu tenho problema com falso moralista. Nesse corte, eu consegui entender, tangenciar, o que era José Leôncio e o que era Tenório.

José Leôncio é um cara conservador e o conservador nada mais é do que alguém que conquistou um espaço e ele não tem nenhum interesse que o mundo ande mais rápido do que está rolando, que as coisas mudem, que venham as novas gerações. Ele quer manter os astros rolando mais devagar, ele já está no seu espaço. E o falso moralista, esse daí a gente conhece, tem vários exemplos para nos inspirarmos. Eu acho que isso me ajudou muito a enxergar Tenório.

Tenório da primeira versão tinha duas famílias. Um tema muito forte nessa tragédia dele, uma faceta muito presente, é que ele era mais feliz com uma outra mulher do que com a esposa.

Na época do meu avô, o casamento, o divórcio, ainda eram certos tabus. Ainda mais no Pantanal, que tem um pouco de um conservadorismo mais presente. Mas no nosso tempo, ele só é um idiota. Se separa da mulher e fica com a outra. Tá muito óbvio aquilo ali. É um cara com poder econômico, com condições. E eu fui tentar entender quem esse cara é no Brasil.

E eu achei que além dele ser um cara machista, homofóbico, ele é um cara racista. A grande tragédia dele é gostar mais de uma mulher preta e não admitir aquilo perante a sociedade. Não assumir amar uma mulher preta. Isso daí teria talvez o peso que a novela precisava para o vilão ser o vilão, e para ser nesse retrato do tempo. Nesse retrato daquele momento, isso é muito claro que é errado. Não precisa fazer muita força.

José Leôncio não tem esse viés. Ele é um cara que compreende as pessoas, que enxerga para além de gênero, de pele, com as suas limitações. Ele talvez vai estar versado em algumas palavras ou não, ele é um cara do mato, um cara matuto, mas ele é um cara bom. Ele é um cara que se você sentar com ele e mostrar, se você sentar com ele e conversar, ele vai ver que somos todos iguais e está tudo bem. Tenório não.

Tenório tinha essa tragédia que também era a possibilidade de a gente trazer um pouco esse racismo estrutural. Então eu fui atrás de pesquisa para me embasar naquilo e entender qual era a legitimidade de trazer esse tema. Trouxe uma família inter-racial com a qual ele era feliz, mas ele não podia administrar. Então, ela estava dentro desse cosmos do personagem, ela estava no lugar correto e fazia muito mais sentido.

Porque precisava, para Pantanal ser Pantanal, precisava ter essas duas famílias, precisava ter esse cara que vivia nesses dois mundos, que tinha uma vida paralela. E foi uma solução criativa dessas que eu digo, para parecer a mesma novela, mesmo sem ser. Um tema que não existia, um tema extremamente delicado, extremamente contemporâneo.

A gente está falando de uma família interracial, os filhos todos tinham isso. Marcelo tinha essa questão muito presente dentro dele. Os filhos nomeavam aquilo – “nosso pai é racista”. Tem uma descoberta disso ao longo da novela, um cuidado muito grande. Isso aconteceu no rescaldo de um evento de uma outra novela, que falava sobre um “racismo reverso”.
Então foi muito delicado, muito difícil fazer, mas a gente esteve sempre cercado de pesquisadores.

Como sou um homem branco, não é lugar de fala nem nada, mas sou um autor, fui atrás da informação. Pesquisei, conversei com Renato Noguera, conversei com Silvio Almeida, conversei com algumas pessoas para entender isso e para construir isso com essa sensibilidade de botar uma família interracial, mesmo sem ser um homem preto, ou ter isso dentro do meu lugar de fala. Ficou muito legal, porque até o grupo dos atores ali, o Gabriel, a Aline e todos os atores que faziam parte desse contexto, em determinado momento, eles falaram, “poxa, você tá falando de uma coisa que não é só do personagem, é uma coisa minha”.

Aí pediram pra fazer um grupo no WhatsApp comigo. Eu falei, vamos. Aí me disseram para não fazer. Eu falei, não, vamos fazer. Eu vou fazer um grupo com eles, como faria com qualquer outro autor. Eu falo questões de agricultura, de pecuária, com Marcos Palmeira, e a gente troca o tempo inteiro, porque eu sou produtor rural também, eu tenho que ter o espaço. Com Almir é a mesma coisa. Então, é o mesmo que eu dou para um, eu dou para o outro. Fizemos um grupo. E foi muito bom, porque a gente teve um lugar de fala muito bacana, foi um processo inteiro muito delicado ali, de dar nome. Eles trouxeram algumas questões pessoais.

O que quiseram entender legitimamente era o que estava na minha cabeça. Não pode ser panfletário. Eu sempre brinco sobre oportunidade e oportunismo. Então, oportunidade é falar de um tema que não foi abordado ainda dessa forma, e oportunismo é querer que aquilo lá alavanque seu trabalho e seu nome.

Então, era uma oportunidade. Eles receberam isso, todos os atores. A gente teve uma troca muito genuína, muito legal. Aline é uma querida, uma atriz brilhante, que até hoje troca mensagens. Esses dias, a Zuleika foi, novamente, objeto de uma premiação para ela, e ela sempre fala sobre isso, e foi um trabalho muito legal.

Difícil nesse momento de Brasil que a gente vive, difícil porque somos todos de vidro hoje, telhados de vidro para todos os lados. Mas foi superado com muita facilidade, com muita honestidade e construindo junto. Quando eles trouxeram algumas coisas, “pô, vamos dosar aqui, vamos dosar ali, você acha que vai mais aqui?”

A gente sempre trocou, eles tiveram espaço e eu ocupando o meu espaço autoral, explicando para eles o porquê aquilo era importante para aquele núcleo, que não era gratuito, não era uma ideia minha para alavancar a novela. Era uma questão para contar aquele personagem, aquela história, aquele núcleo daquela família toda.

Marcelo tinha sua trajetória inteira, a sua jornada do herói própria ali, até ele assumir os negócios do pai, ele provar o seu valor e se encontrar ali naquela terra. Acho que é por aí.

Ana Paula Goulart: É por aí mesmo. Então, ainda continuando nessa questão das atualizações, eu vou pedir para você falar um pouco sobre uma outra questão que diz respeito à questão de gênero. Eu lembro quando eu vi a primeira notícia que a Globo ia fazer Pantanal. Acho que eu, como todas as pessoas que gostam e estudam telenovela, falamos, “caramba, que maravilha”. E eu vou te falar uma coisa, pessoal. A primeira sensação que eu falei, o que eles vão fazer com a personagem da Maria Bruaca?  Porque, para mim parecia uma coisa absolutamente inverossímil nos dias de hoje, uma personagem como aquela. Eu dizia, caramba, quem vai aceitar isso? O público não vai aceitar o cara chamando a mulher de Bruaca e tal.

E, no entanto, foi uma das personagens que teve grande repercussão, foi um grande sucesso. E mais do que isso, gerou muito debate, muito engajamento, muitas questões. Foi um grande acerto. Como é que você explica isso? Como é que você percebe essa questão que poderia parecer tão fora de época e, no entanto, falou tanto ao público?

Bruno Luperi: É um termômetro, né? Maria Bruaca foi um personagem que nunca me assustou. Eu nunca tive dúvida de que ela seria bem recebida. Porque eu acho que a personagem tá muito presente, né? São muitas Marias Bruacas. São muitas mulheres que são vítimas de diversos tipos de assédio, de ordem moral, violenta, física, psicológica, financeira, enfim. Tem nome. Como eu falei, assim como o que o José Leôncio fez há 30 anos atrás tem nome, tá na lei ali, ele seria preso por isso, por isso, por aquilo. Essas violências todas tinham nome. Então, a sociedade avançou 30 anos e a gente pôde olhar para essa mulher.

Teve uma coisa que eu acho que é a síntese dessa diferença. Ângela Leal, que fez a personagem da primeira versão, porque ela tem um caso com o Alcides, ela era chamada de, desculpa a palavra, vagabunda na rua, piranha e tudo mais. Ela era ofendida.
Ou seja, uma mulher que é violentada dentro de sua própria casa, que é traída, que é desrespeitada, que é vítima de diversos tipos de assédio… Na rua, a atriz que dava vida para ela era ofendida, era agredida, era verbalmente achincalhada.

E Maria Bruaca [do remake] foi exaltada como uma grande heroína. Eu acho que nesse fator da fotografia, isso é um indicativo muito claro de como nós evoluímos nessa questão. Estamos longe de chegar onde devemos estar. Mas eu acho que desses 30 anos, por exemplo, a agenda do feminismo, a compreensão da violência a qual a mulher passa, evoluiu demais. A sociedade estava muito pronta.

Acho que foi um grito que a gente quis dar junto. Não tinha muito medo disso, achei super pertinente desde o começo. Tinha essa expectativa de ser uma personagem que fosse ter uma aderência. Tinha muito medo, mais do que do papel – do que estava escrito no papel – de como aquilo ia para a tela.

O encontro com Isabel Teixeira não tem nem o que falar. É Bebeto e Romário. Era para ser. Não tinha muito como tirar, Bel estava pronta, o papel, assim, pulsava. Eu vi um vídeo dela que a produtora mandou – fazendo mais uma alusão à memória da Rosane – e falou, “putz, é ela, não tem nem o que falar, não precisa nem ver o resto”. Porque ela conseguia dar essas camadas todas. Ela fazia você dar risada, mas, quando você via, você chorava junto porque você entendia a dor dela. Ela conseguia passar essa ignorância de quem não entendia o que estava passando, de quem não gostava, mas que aceitava, uma resignação.

Então ela é talvez um dos personagens mais difíceis. Caiu na mão de uma atriz que tinha todas as competências para fazer. E aí, Cazarré também, fazendo Alcides, porque conseguiu trazer um outro espaço, né?

A gente vem com uma outra leitura de um Alcides muito mais bruto, muito mais macho, muito mais viril do que foi na primeira versão. Um Alcides muito mais… que ocupava muito mais a tela. Mas eles se encontraram muito nessa matutice deles, né? Nessas pessoas, nessa quase ignorância dessa pessoa que tá apanhando, não tá gostando, mas tá aceitando, continua a estar ali. E tinha esse arco longo da libertação dela, dessa emancipação dela. Então, acho que foi tudo muito possível.

Voltando pra minha função na obra, era talvez olhar com mais empatia pra essa mulher que sofreu tanto. Acho que muitos gritos dela ali foram meus também.

Esse trabalho e Renascer me tocaram muito em algumas camadas. Porque não é só uma oportunidade de, enquanto autor de dramaturgia, poder reeditar um clássico – eu já acho que é um prêmio que quase que ninguém merece, mas é um baita de um prêmio e eu tive dois.

Fora isso, é do meu avô. E, fora isso, ali estavam os valores todos da minha família. Eu vendo meus filhos, eu falava isso muito com a minha esposa. Tem coisas que eles têm que saber, e coisas que eles não podem saber, eles não podem repetir. Tem valores ali de um homem que eu admiro profundamente, que me forjou a pessoa que eu sou. E tem valores que eu não acredito que esse mesmo homem foi capaz de passar adiante. Ele é um fruto de um momento, a genialidade dele tá em botar aquilo na novela.

Várias vezes eu o encontrava no Mocinho e no Bandido. O meu avô, não o escritor. Então, se ele fosse escrever pra passar pano pra ele mesmo, ele estaria só no Herói. E aí a gente não queria nem ver essa novela uma vez, imagina duas.

Então, como ele fez com honestidade, ele não estava para fazer um exercício de aliviar a consciência dele, para justificar que é assim. No fim das contas, a coisa sempre evolui para uma coisa muito honesta. Nessa leitura, nesse meu processo criativo, eu tenho pesquisadores que estão comigo.

Eu escrevo sozinho, mas eu tenho uma equipe de pesquisa que me ajuda. Porque principalmente esses dois trabalhos carecem muito disso. Como é que a gente interpreta isso hoje? O que é piada e o que não é? O que é legal e o que não é? O que está pronto?

O que a gente tem que passar pra frente? O que a gente tem que revisitar? talvez olhar para isso com mais calma. E aí nesse ponto inteiro, além da Maria Bruaca, tinha a questão da Filó também, que era uma violência muito grande naquela relação.

Tem um casal de agroflorestores que estão comigo desde Velho Chico. São sensacionais, a Dayana e o Filipe. E Dayana e Filipe fizeram críticas. Dayana é uma voz feminista mais forte dentro do grupo. E ela começou a reclamar da Filó. Falei, “isso vai dar ruim aí”. Aí no final, quando José Leôncio fala pra ela que falar que Tadeu era filho dele foi a mentira mais bonita que contaram pra ele, ela chorou. Ela viu aquilo, ligou pra mim chorando e falou, “ai, teu avô é foda, justificou tudo”.

Porque é isso, no fim das contas, são humanos, né? Ele é o herói, ele é o mocinho, ele é o cara bom, mas ele erra, ele é humano. Então, isso tá muito presente ali. Eu acho que o que o público gostou muito foi de ver a emancipação da Maria Bruaca.

Acho que teve uma sabedoria ali em não deixar a coisa ficar presa só no monocórdio, apanhando, apanhando, apanhando a novela toda e só no final emancipar. As fugas dela…

Eu sou muito crítico com ação de comercial na novela, porque eu acho que a gente tá vivendo um momento muito delicado. Entendo a parte comercial, porque o horário comercial perde a relevância, já sabidamente é a hora que todo mundo desliga a TV vai fazer outra coisa, hoje com celular, com WhatsApp, ninguém mais está ali.

Então, isso está migrando para dentro do conteúdo, eu acho que é uma característica que não tem como mudar. E eu ficava muito brigando. Não vai ser ação assim, vou ter que fazer assado, fazia e refazia a ação.

Aconteceu que em Pantanal, quando foi para o ar, a gente vendeu acho que 10 ações para a Unilever. Umas 10 ou 20 ações para a Unilever. E aí eu falei, maravilha. A Unilever tem tudo, né? Vende 20, vende 30, vende o que for, porque aí você vai botar um produto.

Aí depois que venderam, eu descobri que era 10 para a Dove e 10 para a Rexona. Aí não aguentava. A novela ia ter que tanger uma boiada dentro do banheiro pra contar tudo isso de ação. E aí eu fiquei com isso na cabeça, sofri a novela inteira pra tentar encontrar, putz, quando é que passa desodorante, quando é que passa sabonete, como é que… pra não ficar chato. Aí fiquei dosando tudo.

No final da novela, eu tava conversando com Isabel, e ela falou: “você devia ter me dado um merchandising! Eu ia passar o desodorante do Alcides no ar, ia ficar cheirando”. Ia ficar muito legal, porque tinha super a ver com essa coisa. Aí eu me culpei, falei, sou um idiota, né?
Fiquei moralmente ali me recriminando por fazer. Ganhava um dinheiro eu, ganhava um dinheiro ela, Globo Feliz, e eu fiquei me culpando.

Então, assim, Isabel foi espetacular, assim, ela embarcou na personagem, e ela falou com muitas Marias. Ela também foi uma pessoa que o tempo inteiro passava sobre isso. E falava desse termômetro dela, quantas bruacas têm.

A gente que vive em cidade grande tem uma visão de achar que o Brasil é isso. Mas o que o Brasil não é é o que tá na grande cidade, na verdade.  Isso daí é um fato. E mesmo na grande cidade, a gente tem isso daí, essa questão da violência à mulher. Ela tá muito presente.

E eu conheço algumas, inclusive, que sofrem algumas coisas que eu tento até avisar pro meu amigo da família, aviso ou não aviso, mas falo, “isso aqui não é legal, pô, tinha que contar quantos vocês ganham por mês, né?” Não pode esconder. “Cê sabe quanto o seu marido ganha, né? Ah, tá bom, então”. Enfim, eu queria dar uns toques, cê vai dando uns toquezinhos de leve também. Mas eu acho que é isso, eu acho que tá muito presente, eu não acho que tá tão distante assim.

Tem valores ali de um homem que eu admiro profundamente, que me forjou a pessoa que eu sou. E tem valores que eu não acredito que esse mesmo homem foi capaz de passar adiante. Ele é um fruto de um momento, a genialidade dele tá em botar aquilo na novela.

Ana Paula Goulart: Falando sobre esses grandes temas atualizados, vou pedir para você comentar mais um, que é um tema central na novela, que é a relação com o meio ambiente. Acho que mudou muito o Pantanal da versão original para o Pantanal do remake.

Bruno Luperi: Acho que é uma questão. Quando a gente fala do espírito da novela, Pantanal é a novela mais profunda do meu avô. Não acho que é a melhor. Acho que a melhor dramaturgia dele é Renascer, por isso são as duas que me pegam forte. Mas Pantanal é a novela dele.

Meu avô perdeu o pai com 12 anos de idade e ele é o filho mais velho de cinco irmãos. E ele sempre disse que o pai dele intuiu ele a vida inteira. Então ele, Pantanal ele escrevia muito tomado pela emoção, pela bebida e naquele momento mais romântico da época dele. Conversando com ele eu falei, “cara, você está esperando o seu pai chegar e o Velho do Rio é o seu pai”. Ele não tinha essa… Mas assim, essa é a história dele. Ele querendo uma entidade que passou para ele os valores dele. O pai dele foi uma pessoa muito próxima, era jornalista, eles são de Vera Cruz, interior de São Paulo. Ele se alfabetizou na tipografia do pai, o pai vendia livro, jornal, informava essas coisas todas. E foi embora muito cedo, então ele ficou esperando esse pai voltar a vida inteira.

Eu acho que essa é a novela mais íntima dele. Por isso que quando a Globo cogitou refazer Pantanal e ele não tinha mais condições de saúde para reescrever, ele não queria vender. Quando ele voltou, nos anos 2000, quando ele estava lá na Globo, a Globo começou a pagar os direitos de Pantanal, só que ele estava pleno de saúde ainda, para comprar os direitos de Pantanal para um dia fazer a novela. E aí foi que Silvio Santos comprou a massa falida da Manchete, com algum negócio, começou a passar na TV. Aí a Globo falou, bom, eu tô comprando e o meu amigo ali tá passando, você tem que resolver isso daí.

Então ficou um processo arrastando durante muitos anos na justiça. A minha família tava movendo esse processo contra, pra reaver os direitos, enfim. Quando isso acabou, acabaria o contrato dele, meu avô já não tinha condição. Então ele tinha muito essa questão de vender ou não vender. Ele não queria vender porque ele tinha muito medo que alguém fosse mexer naquilo sem entender o quanto aquilo é importante pra ele.

Quando ele falou para a Globo, a Globo falou: “a gente não quer do jeito que está, a gente precisa que ela seja reinterpretada. É uma obra linda, mas é uma obra que não fala com o hoje, não fala com esse momento de Brasil, de realidade”. E ele falou não. Aí, chegaram no meu nome, porque tem um traço de eu seguir a mesma linhagem. E, querendo ou não, as histórias do meu avô são o meu quintal, né? É ali que eu fui criado, foram elas que me forjaram enquanto pessoa, enquanto valor, por bem ou por mal. É muito natural pra mim falar essa língua.

E tinha um pouco disso. Meu bisavô é um anarquista e é um cara que passava para o meu avô muitos valores, durante o pouco tempo que eles conviveram, 12 anos, passou valores muito profundos.

E tinha essa questão de ela ter sido uma novela, apesar de ela ter uma outra leitura hoje sobre o meio ambiente, ela tinha uma premissa muito forte sobre o homem se resumir ao seu papel dentro da natureza.

Então, acho que hoje ele teria feito que uma novela parecida com a que eu fiz. Porque seria à luz de um novo conceito ambiental, né?

A pecuária naquele momento era uma grande pecuária. Eram pessoas que estavam muito ligadas à natureza. Quando você conversa com pecuaristas, com quem vive da terra – talvez não o dono da terra necessariamente – mas com quem está ali, ele sente também isso, que ele não sentia na época do meu avô.

Acho que esses 30 anos mudaram muito esse contexto. De fato, empurraram os protagonistas, seja José Inocêncio ou José Leôncio, para um lugar quase mais posto à vilania, do cara que tá lutando contra o fim do… O fim do impacto ao meio ambiente, talvez? Então para essa novela acontecer e existir, eu tentei calcar muito a dramaturgia no José Leôncio que tinha que manter o Pantanal intacto para o pai dele voltar. Isso não estava tão presente na primeira versão.

Para ele manter o Pantanal intacto, ele teve que subir com a boiada dele e lá no planalto ele teve que fazer as intervenções e jogar de acordo com o core business, de acordo com o mercado. Ali, não. No Pantanal não entrava, ele fazia cria, fazia recria e tirava o gado do jeito que o pai dele fazia. Lá fora, ele teve que ganhar dinheiro, inclusive porque ali não dava mais dinheiro. E aí tem toda essa fronteira do agronegócio que tá na beirada do Pantanal.

Pantanal é como se fosse um bojo, uma bacia que inunda de água. Então hoje a gente tá passando exatamente isso, né? Antigamente era muito mais… era tudo muito… essa fronteira tá muito mais delimitada. Os caras tão doidos pra descer, secar aquilo ali e botar o que for.

Então, assim, Pantanal só é um pouco parecido com o que era… E aí eu pego diferença, porque acho que são dois exemplos muito distintos. Renascer se transformou completamente porque a vassoura de bruxa ressignificou todo o contexto e o bioma do sul da Bahia. O Pantanal não, ainda tem esse limite.

Então ela só estressou mais. Foi só isso que aconteceu. Estressou mais, mas assim, a natureza do José Leôncio é muito próxima do que era lá atrás. Eu tive que criar toda essa construção de que ali é do jeito que meu pai faria. Ele não é dono daquela fazenda nunca, né? Ele tá esperando o pai voltar pra assumir.

Mas aí, como ele vem pro planalto, tem Jove, com uma nova consciência. A gente tem que trazer um pouco desse novo olhar. Então, Jove também tá muito ligado nisso, nesse vetor de consciência.

O Jove da primeira versão era um playboy que tava vivendo um momento de redemocratização, um cara do oba-oba, pode tudo. Esse nosso Jove é um cara completamente tocado pela urgência do mundo. E eu acho que isso também fala muito, né? Ele é muito coerente com a juventude de hoje.

Quando a gente tava falando sobre personagens, eu tracei um pouco nesse Jove uma… Um medo que eu tenho. Eu sou de São Paulo e não tem horizonte na minha cidade. Só tem prédio, né? Eu não vejo o sol se pôr, não vejo o sol nascer. E na hora que a gente estava fazendo a reunião para caracterização dos personagens, Valtinho Carvalho, que é mais uma das pessoas brilhantes que a gente tem nesse meio, falou, “pera, fala mais sobre isso aí”. Eu tava tentando explicar pra eles esse sufocamento dessa criança… Esse jovem que tá ali, que não vê o sol bater, não vê o sol se pôr, não vê o mundo, não vê o futuro, né? Porque é dessa geração que a gente tá falando.

Então não só José Leôncio. É José Leôncio, é Jove, é o Velho do Rio, é o que ele passa, eu acho que é esse… São esses ensinamentos do Velho do Rio que ganham um outro espaço quântico, são ressignificados de uma outra maneira. Então, enfim, é delicado.

Como eu falei, é desmontar o avião e montar. Tem que fazer subir depois. Mas assim, foi muito gostoso. Acho que foi muito bem. Meu cuidado é sempre não ser panfletário.

Numa das reuniões com um dos caras que estavam no Pantanal, fazendeiros dali… Não é nem o dono, é o cara que toca a fazenda, porque o cara tem tanto dinheiro que ele nem toca a fazenda. E aí eu comecei a conversar com ele e sobre a questão da onça. A onça é uma questão muito difícil. Quem paga pra gente não matar onça?

Porque tudo bem eu achar ruim não matar onça do Rio e de São Paulo. É confortável. Mas e pro cara que tá ali? Porque a onça, como qualquer predador, ela precisa comer e ela vai predar. Se ela preda um tamanduá… Eu já vi uma onça tentando pegar um tamanduá e é só pau. O tamanduá levanta, dá agarrada, corta e não é fácil. E um nadinha de cada. Aí você pega um nelore, 300 kg de carne, que você empurra no chão e derruba.

Aí você vai matar ali, você vai comer três filés de gato ou um nelore todo sozinho? Então assim, se ela invade, ela pega, ela prende, ela ensina o filho dela. Então é uma questão muito mais complexa do que ficar moralizando da cidade e falar, “não mata onça, né”?

É, não deve matar, mas quem paga a conta? Eu tava conversando com esse cara e ele falou, “eu acho que o governo deveria ter a taxa onça”, que é uma questão que eles discutem ali. E o cara era um… Ultradireitista xiita, de botar a arma na mesa na hora de falar com você. “Mas como assim?” “Não, eu acho. É uma questão muito mais complexa. Obviamente é muito melhor que não mate. Eu preferia que não matasse. Mas se você tem uma situação de criar gado e viver do gado, o governo tem que entrar no meio desse jogo. Porque não pode exigir que você não mate, se está prejudicando a sua produção”.

É uma questão que tem que ser discutida de uma maneira mais honesta. Então acho que a novela se propôs a isso também. Ela não ficou apontando… O urbano apontando para o agro, cheio de dedo. Porque tem a contrapartida.

Esse nosso Jove é um cara completamente tocado pela urgência do mundo. E eu acho que isso também fala muito, né? Ele é muito coerente com a juventude de hoje.

Eu achei que Jove com José Leôncio fizeram isso daí a novela inteira de um jeito bom. Por isso que Jove também ser vegetariano era uma coisa interessante. Porque, peraí, você é do Rio, vegetariano. Mas você estudou onde você estudou, porque eu paguei daqui, da terra.

Então ela teve a possibilidade de trazer essas discussões todas. De uma maneira muito natural, de uma maneira muito leve, mas também muito honesta. Pelo menos eu tentei ter sido honesto. Não sei se fui. Mas ela não se omitiu.

Ela discutiu, se aprofundou em temas que são temas relevantes. Falamos das queimadas, falamos de algumas coisas que acontecem, sempre tentando tirar a foto honesta. Às vezes é difícil. Às vezes tem pessoal que quer esconder uma partezinha da foto ou outra. Mas o trabalho é mostrar o todo.