Benedito Ruy Barbosa (1931–2026): um autor que ajudou a narrar o Brasil

Novelista morreu aos 95 anos, deixando um legado que transformou a teledramaturgia brasileira e permanece como referência para pesquisadores, realizadores e espectadores.

Obitel Brasil / 13 de julho de 2026

A teledramaturgia brasileira perdeu, em 07 de julho de 2026, um dos autores fundamentais para a consolidação da telenovela brasileira como a conhecemos. Benedito Ruy Barbosa nos deixa uma obra que atravessa mais de cinco décadas da televisão nacional e permanece viva na memória do público, nas reprises, nas refilmagens e, sobretudo, na força de histórias que ajudaram a construir o imaginário brasileiro.

Autor de obras marcantes como Meu Pedacinho de Chão (1971 / 2014), Sinhá Moça (1986 / 2006), Pantanal (1990 / 2022), Renascer (1993 / 2024), O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999) e Velho Chico (2016), Benedito tinha uma forma singular de narrar o Brasil. Suas telenovelas transformaram o espaço rural em protagonista, explorando as tensões entre campo e cidade, tradição e modernidade, civilização e natureza.

Para a pesquisadora Maria Carmen Jacob de Souza, coordenadora do Obitel UFBA e autora de Telenovela e Representação Social: Benedito Ruy Barbosa e a Representação do Popular na Telenovela Renascer, Benedito “deixou um volume espantoso de histórias narradas nas telenovelas”. Segundo ela, ele foi “um dos roteiristas autores que mais frequentemente explorou as tensões entre o universo rural e o urbano, colaborando na construção das representações dos coronéis no imaginário nacional e na promoção do debate público sobre a questão agrária e a questão ambiental”.

Em novelas como O Rei do Gado (1996), Benedito Ruy Barbosa defendeu a reforma agrária

A imaginação de Benedito Ruy Barbosa deu vida a uma extensa lista de personagens carismáticos que ficaram na história da teledramaturgia brasileira, como a professora Juliana e o coronel Epaminondas, de Meu Pedacinho de Chão, Juma Marruá e o Velho do Rio, de Pantanal, José Inocêncio e Tião Galinha, de Renascer, Bruno Mezenga e Luana “Marieta” Berdinazzi, de o Rei do Gado, ou os amantes desafortunados Matteo e Giuliana, de Terra Nostra. “Sem dúvida, foi um escritor que deixou marcas profundas na história da teledramaturgia seriada da Globo”, considera Maria Carmen.

Na avaliação da coordenadora do Obitel UFBA, um dos maiores méritos de Benedito foi justamente fazer “do universo familiar um território fértil para personagens inesquecíveis, conduzindo o público por intensas histórias de amor, por mulheres que rompiam grilhões e por figuras paternas emocionadas diante do desafio de compreender o novo mundo vivido pelos filhos”. Nas narrativas do autor, conflitos sociais e transformações históricas eram vividos por personagens de grande densidade dramática, capazes de traduzir mudanças profundas da sociedade brasileira.

Sua trajetória na televisão começou nos tempos da pioneira Gloria Magadan, por quem nutria grande respeito e a quem reconhecia como uma de suas mestras “na carpintaria das telenovelas”, segundo Maria Carmen. Ao longo das décadas seguintes, consolidou uma das carreiras mais longevas e influentes da televisão brasileira.

“Desde o início dos anos 1990, sua obra permaneceu continuamente presente, seja com as originais do horário das seis e das 21 horas, seja com as inúmeras reprises de seus sucessos, com destaque para Pantanal e O Rei do Gado, seja com as várias refilmagens de suas obras, de Cabocla, Sinhá Moça e as mais recentes de Pantanal e Renascer“.

Outro aspecto fundamental de seu legado foi a construção de importantes parcerias criativas. Maria Carmen considera que Benedito também “será lembrado pelas parcerias com os diretores intérpretes de seu universo ficcional”. Entre elas, destaca-se a colaboração com Luiz Fernando Carvalho, “o parceiro mais assíduo que estabeleceu referências basilares na inovação e experimentação das telenovelas”, a exemplo de Renascer e Meu Pedacinho de Chão.

Ao lado de Jayme Monjardim, acrescenta a pesquisadora, Benedito “contribuiu para consolidar, em Pantanal, um estilo audiovisual que redefiniu os padrões estéticos das telenovelas brasileiras e com Terra Nostra deixou outra importante referência que atravessou oceanos”.

Seu legado também se estendeu para além da própria obra. Como lembra Maria Carmen, Benedito “deixou uma geração de autores formada em sua oficina dramatúrgica familiar: filhas e neto como colaboradores, coautores e autores”. Para ela, “esta escola cunhou mestres do estilo Barbosa de contar histórias”, perpetuando uma forma particular de construção dramatúrgica.

Bruno Luperi, neto de Benedito e também autor de novelas, é um deles. Responsável pelo remake de Pantanal (2022), Luperi discutiu os desafios de atualizar a obra de seu avô, trabalho que ele considera o mais intimista de Benedito, na conferência de abertura do IX Encontro Obitel Brasil. Na ocasião, ele comentou o processo reflexivo de escrita de Benedito, que, intencionalmente ou não, se colocava tanto nos heróis como nos vilões de suas obras. “Várias vezes eu o encontrava no mocinho e no bandido – o meu avô, não o escritor”, disse. “No fim das contas, a coisa sempre evolui para uma coisa muito honesta”.

Para os estudos de televisão, a produção de Benedito Ruy Barbosa permanece um campo fértil de investigação. Nas palavras de Maria Carmen Jacob de Souza, “sua trajetória ainda oferece um amplo campo de investigação para compreender a autoria, os modos de criação e as transformações da teledramaturgia brasileira. Sem dúvida, teremos muito o que aprender com seu legado.”

O Obitel Brasil presta sua homenagem ao eterno Benedito Ruy Barbosa e agradece por uma obra que ajudou a contar o Brasil para gerações de espectadores, constituindo um patrimônio incontornável da ficção televisiva latino-americana.