Na TV e no feed, Loquinha mostra por que é um fenômeno da teledramaturgia

Spin-off de Três Graças em formato vertical chama atenção de pesquisadoras da Rede Obitel Brasil por explorar as possibilidades do formato vertical e pelas práticas de engajamento dos fãs

Obitel Brasil / 11 de abril de 2026

– Você não acha que a nossa história renderia uma novelinha dessas?

– Olha, acho que temos material para uma boa trama… Até vilão a gente tem, querendo separar as duas!

– “Mas tem romance, tem amor, tem beijo…

– “Taí, acho que eu ia gostar de ver a nossa história sendo contada nesse formato de novelinha. Ia ser bonito.

– “Quem sabe, em algum multiverso por aí, isso já não está acontecendo?

Foi assim que Três Graças (TV Globo, 2025-2026) anunciou, no capítulo de 6 de abril, a estreia de um produto derivado com foco em seu casal mais carismático e popular: em cena, logo antes do gancho para o intervalo. Ao mesmo tempo em que as personagens Lorena e Juquinha se divertiam com a ideia de que seu romance parece “coisa de novela”, os 25 capítulos da novelinha vertical Loquinha eram lançados em quatro perfis de redes sociais da TV Globo — Instagram, TikTok, X e YouTube. O formato vertical é uma das apostas mais recentes da emissora e encontra, aqui, sua experiência mais bem-sucedida até o momento.

Em relação à narrativa, não é à toa que Juquinha menciona um “multiverso” no diálogo exibido na TV Globo. Criada para dispositivos móveis e para o consumo digital, Loquinha mergulha no casal em uma trama autônoma, com pontos de convergência e divergência em relação à narrativa principal. Os capítulos apresentam situações do cotidiano e exploram os conflitos que surgem quando Lorena e Juquinha decidem morar juntas. Enquanto montam seu novo ninho de amor, Lorena passa a investir na carreira de escritora, e Juquinha começa a ser atormentada por uma ex-namorada insistente. Além das protagonistas, outras personagens do universo ficcional de Aguinaldo Silva, como Maggye, Lucélia e Macedo, também participam da novelinha, ao lado de personagens criadas exclusivamente para o spin-off.

A pesquisadora e co-coordenadora da equipe Obitel PUC-Rio, Bruna Aucar, considera que o microdrama não é apenas um desdobramento da telenovela, mas um dispositivo que “articula estratégias industriais, dinâmicas de engajamento e políticas de representação, materializando novas formas de circulação, consumo e pertencimento no ambiente midiático contemporâneo”.

Com capítulos de cerca de três minutos, a novelinha vertical experimenta diferentes possibilidades de linguagem, incorporando dinâmicas próprias das plataformas digitais. “Esse deslocamento formal abre espaço para experimentações narrativas e estéticas que dificilmente encontrariam lugar na grade tradicional. No caso de Loquinha, isso se traduz em um produto claramente orientado para nichos (em especial, para o fandom do casal), privilegiando uma narrativa mais fragmentada e ágil”, explica Bruna.

Esse deslocamento formal abre espaço para experimentações narrativas e estéticas que dificilmente encontrariam lugar na grade tradicional – Bruna Aucar (Obitel PUC-Rio)

A resposta do público foi estrondosa e imediata. Segundo a gerente de conteúdo de ficção da TV Globo, Thaísa Cerveira, nas primeiras 36 horas após o lançamento, Loquinha já havia ultrapassado 100 milhões de visualizações, alcançado o primeiro lugar nos Trending Topics brasileiros e permanecido por quatro horas entre os assuntos mais comentados do mundo.

Nas redes, essa repercussão já vinha sendo observada desde a exibição das primeiras cenas do casal. De acordo com Daiana Sigiliano, vice-coordenadora da equipe Obitel UFJF, o fandom de Loquinha sempre chamou atenção, tanto pelo engajamento quanto pela diversidade de práticas. A comunidade inclui “desde perfis que publicam GIFs e trechos em câmera lenta das cenas até aqueles que fazem curadoria de conteúdo”, afirma a pesquisadora. “O casal representa um marco não apenas para a ficção seriada, mas também para os estudos da cultura de fãs, em que telespectadores interagentes compreendem criticamente o que assistem, analisando aspectos estilísticos, estéticos e narrativos, além das lógicas da datificação e do poder do fandom na cultura digital”.

Desde o anúncio do spin-off, o interesse das fãs vinha crescendo progressivamente, acompanhado por uma estratégia eficaz da Globo, que passou a oferecer conteúdos de bastidores e a articular ações junto ao fandom. A expectativa era que um produto protagonizado pelo casal pudesse ampliar seu tempo de tela. Além disso, o ambiente mais flexível das redes possibilita explorar conflitos de uma relação entre duas mulheres com um tratamento distinto daquele da televisão linear. “Há, portanto, uma amplificação tanto narrativa quanto simbólica da representação do casal sáfico”, considera Bruna Aucar.

Nesse contexto, o expressivo sucesso quantitativo da novelinha também é, segundo Daiana Sigiliano, fruto de um esforço coletivo organizado nas redes de fãs, que compreendem a trajetória de Lorena e Juquinha, em Três Graças, como um ponto de inflexão na representação sáfica em telenovelas brasileiras. “Com o lançamento da novelinha, o fandom passou a articular práticas de mobilização até então inéditas no âmbito da telenovela. Foram criados tutoriais, grupos no WhatsApp e threads no X detalhando a importância do engajamento, bem como as especificidades da arquitetura informacional de cada rede social e o que deveria ser feito para ampliar o alcance dos capítulos de Loquinha“.

Demonstrando compreensão sobre os algoritmos de diferentes plataformas, fãs se mobilizaram para aumentar o número de visualizações e o alcance dos capítulos

Ao mesmo tempo, a Globo capitaliza sobre demandas de representação identitária. “Ao normalizar a diversidade e incorporá-la como estratégia de conteúdo, a empresa se posiciona como inclusiva e alinhada a valores contemporâneos, respondendo a demandas históricas de parcelas da audiência por narrativas menos estigmatizadas. É um movimento que contribui para ampliar o tempo de tela e a centralidade dessas personagens no universo de Três Graças na TV aberta”, avalia Bruna Aucar.

O resultado foi muito bem avaliado tanto pelas fãs como pela crítica, superando com folga a avaliação de outros microdramas originais da Globo, como Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário e Tudo por uma Segunda Chance. Bem atuada, dirigida e editada, Loquinha acerta o tom, mantendo a leveza que conquistou os fãs de Três Graças ao mesmo tempo em que introduz conflitos dramáticos de rápida resolução. A repercussão positiva deixou no ar a pergunta: será que teremos mais temporadas de Loquinha?

Enquanto esse mistério não é solucionado, Loquinha está disponível no TikTok, Instagram, X e YouTube da TV Globo. Vai lá conferir!

Ou maratone aqui mesmo: