“A gente pode fazer uma teledramaturgia que pareça mais com o Brasil”: Renata Corrêa conversa sobre a função da ficção televisiva
A roteirista de produções como "Rensga Hits!" e "Vai na Fé" fala sobre o papel do melodrama para conectar audiências com temáticas sociais
Obitel Brasil / 19 de agosto de 2025
Renata Corrêa é roteirista audiovisual, teatral e de outros formatos como podcasts. Trabalhou durante cinco anos na MTV e, desde 2018, trabalha na Rede Globo, colaborando em programas como a novela Vai na fé (TV Globo, 2023) e o sitcom Tá no ar: A TV na TV (TV Globo, 2014). É também criadora da série Rensga Hits! (2022), do Globoplay, que chegou à sua terceira temporada em 2025.
Em entrevista ao Obitel Brasil, Renata comenta a diversidade de formatos abrangidos por sua criação dramatúrgica, bem como sobre as dimensões política e pedagógica de seu trabalho, em consonância com a atualidade do país.
A entrevista foi conduzida por Aline Vaz (Obitel UFPR), bolsista de divulgação científica da rede Obitel Brasil, numa parceria com o Observatório de Qualidade de Audiovisual, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Como se dá o seu processo de criação em consonância com a atualidade do país?
Eu acho que não tem como um autor não estar em consonância com o que está acontecendo. Talvez ele seja atravessado por questões de gênero, de classe econômica, de raça, e isso vai se refletir no tipo de material que que vai ser produzido.
Eu acho impossível a gente não estar contextualizado com o país em que a gente vive, com o momento político, com as mudanças culturais e tecnológicas. O que vai mudar é a maneira com que se coloca isso em tela. Mas as suas subjetividades, suas identidades, vão estar em tela de alguma maneira, e isso pode ser mais ou menos consciente.
Você pode optar por ser um autor que dialoga com o mundo, que olha para o mundo. Que apesar de, ou por causa de suas identidades, vai falar: “Eu quero dialogar com essas questões. Essas questões me mobilizam, e eu vou fazer esse esforço consciente de dialogar com elas”.
Pensando nisso, de que modo você enxerga o papel da teledramaturgia em fomentar a construção de um repertório sobre o Brasil e sobre problemas sociais emergentes?
A teledramaturgia, principalmente da Rede Globo de televisão, criou um imaginário do que é esse país. A gente se vê naquela tela por semelhança e por oposição também. A gente via os dramas daquelas novelas, e tem um lugar que é de ambiguidade.
Até bem pouco tempo atrás, as produções eram majoritariamente brancas. Falavam de uma elite. O núcleo de humor estava sempre ali no subúrbio. Até bem pouco tempo atrás, era comum mulher apanhar em novela. Eu, que era uma criança que adorava a novela das 7, lembro que, em A Gata Comeu (TV Globo, 1985), por exemplo, a primeira cena do casal romântico é de violência, de violência de gênero. O cara dando um tapa na cara da protagonista.
E eu acho que isso foi mudando. Vem mudando porque o mundo vem mudando, as pessoas vêm exigindo outras coisas da teledramaturgia e a teledramaturgia também avança.
A gente avança nesses temas sabendo que eles podem sofrer uma rejeição ou ser tratadas como polêmica. A Força do Querer (2017), da Glória Perez, tinha uma mulher cis que fazia transição e se tornava um homem trans. A maneira com que essa autora conduziu essa trama foi extremamente habilidosa. A gente teve ali, um país que se diz conservador, um país que é extremamente homofóbico e transfóbico, torcendo para aquela pessoa trans parar de sofrer.
É uma habilidade de olhar o mundo, convidar o mundo a refletir junto com você.
Tem de pressionar essas certezas que as pessoas têm. E não é sobre confrontá-las.
A teledramaturgia televisiva é para milhões de pessoas e o modelo da TV Aberta é um modelo baseado em anunciante, ou seja, em audiência. A TV Aberta nem sempre é uma escolha – às vezes as pessoas têm apenas a TV Aberta como lazer. Então, acho até um desrespeito quando se tenta confrontar quem está dentro da sua casa.
A gente pode tensionar esses temas, mas como forma de reflexão, como convite. Muito mais como: “eu me pareço com você”. Experiências humanas que são retratadas no melodrama são um laço em comum.
Por exemplo, uma mãe que perde um filho é uma experiência devastadora para qualquer mulher.
Dona de Mim (TV Globo, 2025) é uma novela da Rosane Svartman, com quem eu trabalhei em Vai na Fé (TV Globo, 2023). Dona de Mim tem uma protagonista negra, que é que é interpretada pela Clara Moneke, uma grande atriz. A gente tem ali o drama da perda gestacional tardia, que é um tema super silenciado, de que pouco se fala. Rosane trouxe esse tema para o centro dessa família negra de subúrbio liderada por uma mulher.

Dona de Mim trouxe o drama da perda gestacional tardia para o centro da narrativa
Quando você coloca a experiência de dor universal que é perder um filho, você está fazendo um convite, inclusive para aquela pessoa que fala na rede social “ai, que saco, agora tudo é racial”, ou “por que não colocou fulana para protagonizar”, e tal.
Você está fazendo um convite, falando assim: “Olha como somos mais parecidos do que diferentes. Olha como a dor é um pouco igual para todo mundo. Ela tem suas diferenças, mas ela é um pouco igual para todo mundo”.
Eu acho que todas as dimensões são políticas. As escolhas estéticas, a maneira como a história é contada, a história que se escolheu ser contada.
Apesar das quedas na audiência, pela concorrência com os streamings e pelo modo diferente de se consumir teledramaturgia agora, eu sinto que é um momento muito rico para nossa teledramaturgia, porque a gente está de diversas maneiras descolonizando o nosso imaginário.
A gente está vendo um Brasil que se pareça mais com a gente. Houve um marco, que foi Avenida Brasil (TV Globo, 2012), em que a gente tem aquela família suburbana rica muito conectada com o imaginário de como o brasileiro se enxergava naquele momento. Minha filha tinha acabado de nascer e eu era viciada na novela. Eu ficava assim: “eu que venho da Zona Norte do Rio de Janeiro, entendo essas pessoas. Eu sei quem essas pessoas são”. Essa construção do imaginário passa por aí, por quem a gente é, como a gente vive nesse mundo, como a gente se posiciona, como a gente enxerga as relações raciais, como a gente enxerga as relações de gênero.
É um momento de inflexão importante, onde a gente pode fazer uma teledramaturgia que parece mais com o Brasil. Isso é muito relevante, muito importante.
No seu trabalho, como você lida com a recepção do público?
Eu vejo muito repercussão de rede social. Sou viciada, infelizmente. Eu saí do Twitter, mas era bem viciada. Eu tive 70 mil seguidores, imagina, que loucura. Eu achei que estava tóxico demais e percebi que não ia aguentar ficar ali, mas repercussão nas redes sociais eu vejo bastante.
Quando a gente está no ar com uma telenovela, temos acesso à pesquisa qualitativa, em que esses dados aparecem de forma mais apurada.
O que eu posso dizer é que o que se diz nas redes sociais geralmente é muito diferente quando você vai para uma Quali. Essa pesquisa se faz com um mês de novela no ar para entender o que está funcionando, o que não está funcionando, esses ajustes. Mas é o olhar do autor que vai entender qual é a origem daquele desconforto, daquela antipatia, daquela reclamação.
Eu lembro muito de uma personagem de Vai na Fé, que no Twitter era a chata. Chata, chata, chata. E quando a gente vai para a Quali, ela é amada. É uma filha exemplar, que respeita a mãe, que faz universidade…
Então, você tem que ter um uma cabeça no lugar e eu acho que nem todo mundo tem, né? Porque a rede social te incita a acreditar que aquilo é enorme, que é gigantesco.
O papel da rede social, na verdade, é muito mais pautar outros reverberadores, tipo a imprensa. Mas não necessariamente as opiniões que estão nas redes sociais estão em consonância com o que a maioria das pessoas acredita.
Então tem que ter muita calma. Você pode se divertir com a repercussão nas redes sociais, mas entendendo que aquilo é uma bolha barulhenta, né? Que reverbera coisas muito específicas que não necessariamente têm a ver com a dramaturgia que está sendo contada. Tem que ter cabeça fria e saber ler esses dados.
A rede social te incita a acreditar que aquilo é enorme, que é gigantesco. Você pode se divertir com a repercussão nas redes sociais, mas entendendo que aquilo é uma bolha barulhenta.
Como procura dialogar com discursos ideológicos contrários e com o contraditório?
As pessoas têm um discurso ideológico muito diverso, né? Eu acredito que a gente é muito melhor e muito muito menos polarizado no off. O melodrama traz essa experiência muito profunda, muito primal da gente lidar com dilemas que são comuns a todas as pessoas.
Um autor habilidoso vai saber tocar no nervo correto para que os espectadores se conectem com uma história. É um casamento desfeito, uma traição de amizade, uma mudança do status social, a perda de um emprego, é um filho que vai para o mau caminho. Isso é muito comum para todos nós.
Quando a gente coloca isso na tela, entramos em sintonia com a sociedade. E quando você não subestima o espectador, quando tem a sorte (porque tem um aspecto de sorte também) de conseguir se conectar com a audiência em aspectos mais subjetivos e que têm a ver com o espírito do tempo… Quando a gente consegue fazer isso, essas opiniões contraditórias se diluem um pouco.
Ter um bom filho, que vai para a universidade, por exemplo, que honra a sua família, vai orgulhar o cara hiper intelectual de esquerda que mora numa cobertura Ipanema e vai orgulhar a mulher negra evangélica que mora no subúrbio. Vai orgulhar de maneiras diferentes, mas ainda vai orgulhar.
Então, eu acho que encontrar esses pontos em comum é muito importante para fazer dramaturgia televisiva.
Pensando em liberdade criativa, sabemos que alguns mecanismos de censura persistiram mesmo com a redemocratização no país, principalmente em relação a temas morais. Como você trabalha em meio às possíveis dinâmicas repressivas, e quais são as estratégias de resistência no seu trabalho?
Eu nunca fui censurada, do tipo “essa trama não pode existir”. As orientações que vêm muitas vezes são sobre o pace (ritmo) do desenvolvimento. “Vamos mais devagar para o marco de relacionamento desse casal acontecer mais para frente, para o público comprar mais, para o público abraçar mais”.
Eu sou boca suja, então eu já recebi muito mais recomendações de piadas que foram consideradas sujas e inadequadas para o horário, do que especificamente de trama. Mas é sempre um lugar de pesos e contrapesos.
Quando você está falando para grandes audiências e trabalhando com orçamentos que têm uma escala gigante, a gente tem que entender que é um negócio, né? Que a TV é um negócio. Então, existe uma primazia da audiência. Se aquilo estiver funcionando, e estiver repercutindo, meu amor, vai continuar no ar.
É por isso também que eu que eu entendo que o nosso papel como autores de dramaturgia televisiva, principalmente na TV aberta, é criar estratégias para conquistar o público nesse sentido que eu falei, de procurar o ponto em comum. Procurar o lugar em comum no qual as pessoas possam se identificar com aquilo.
Por exemplo, em Rensga Hits! (Globoplay, 2022), o personagem Deivid Cafajeste, interpretado por Alejandro Claveaux, se apaixona pelo segurança Kevin Costa, interpretado por Samuel de Assis. A gente tinha algumas dimensões que podiam fazer essa trama ser mais ou menos aceita pelo público.
Eu acho que uso o romance como estratégia. O romance é um lugar de utopia, hoje em dia. O romance sempre foi sobre duas pessoas diferentes que puderam se encontrar e se entender e se enxergar.
Eu usei o tropo do cafajeste que se torna homem de família. Essa é uma fantasia universal, né? Esse cafajeste que por dentro é um romântico, e só não encontrou a pessoa correta, a tampa da sua panela. Isso é algo que mexe com a gente quando a gente fala de romance. Então, quando eu construo um casal inter-racial de dois homens, eu construo esse cara que é um cafajeste e só não encontrou o amor. Aí do outro lado, eu construo um cara que é super bem resolvido e que não vai aceitar menos, não vai aceitar ficar escondido.

Deivid Cafajeste e Kevin Costa, personagens de Rensga Hits!
O autor tem que traçar essas estratégias para que, quando o espectador olhe para a tela, não veja um casal que vai contra o que ele acredita ideologicamente. Mas que o espectador veja uma pessoa que está sofrendo porque não está com a pessoa amada. Quando a gente traça essas estratégias, a chance dos pedidos de ajuste para essas tramas é muito menor.
E tem o humor, né? O brasileiro aceita muito o humor. Como linguagem, mesmo. A gente também tem que pensar em como esse humor é usado. A gente pode sair do estereótipo, por exemplo.
Rensga tem o conflito entre um casal, em que um é uma estrela e o outro é um homem contido que não gosta de holofotes. O humor vem do conflito entre esses dois personagens, e não do estereótipo de como homens gays costumam ser retratados na dramaturgia. Isso também é importante. Se for usar o humor, pensar no humor como uma ferramenta de contar a história. De amplificar esses conflitos e não para reforçar os estereótipos.
Conteúdos Relacionados
-

Benedito Ruy Barbosa (1931–2026): um autor que ajudou a narrar o Brasil
3 min de leitura
-

Na TV e no feed, Loquinha mostra por que é um fenômeno da teledramaturgia
4 min de leitura
-

“A novela é uma fotografia do tempo”: reflexões de Bruno Luperi sobre o remake de Pantanal
20 min de leitura
-

Em novo episódio, “Capítulo de Hoje” destaca avanços na representação de casais de mulheres
36 min de leitura