Loquinha, um respiro para o padrão do romance sáfico na TV aberta?

Como Três Graças (TV Globo, 2025) parece romper fórmulas tradicionais na representação de casais de mulheres

Obitel Brasil / 9 de dezembro de 2025

As personagens Lorena e Juquinha, em cena de Três Graças

Em Três Graças (TV Globo, 2025), Lorena e Juquinha, interpretadas por Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski, ainda nem haviam trocado olhares quando o ship “Loquinha” ganhou as redes e ultrapassou as fronteiras da TV aberta. O fenômeno chamou atenção não apenas pela rapidez com que mobilizou fãs no Brasil e no exterior, mas também pelo modo como reposiciona as narrativas sáficas na teledramaturgia.

Conversamos com Cecília Almeida, pesquisadora e coordenadora da equipe Obitel UFPE, que há anos acompanha a representação de relacionamentos homoafetivos entre mulheres nas novelas brasileiras. Para a pesquisadora, Loquinha traz “uma situação até então sem precedentes na maneira como as personagens foram apresentadas e como o romance está sendo desenvolvido”.

Ela lembra que a teledramaturgia brasileira já exibiu casais emblemáticos que quebraram barreiras — Glorinha e Roberta, de O Rebu (TV Globo, 1974); Laís e Cecília, de Vale Tudo (TV Globo, 1988/2025); Leila e Rafaela, de Torre de Babel (TV Globo, 1998); Clara e Rafaela, de Mulheres Apaixonadas (2003); Eleonora e Jennifer, de Senhora do Destino (TV Globo, 2004); Clara e Marina, de Em Família (TV Globo, 2014); Teresa e Estela, de Babilônia (2015); Clara e Helena, em Vai na Fé (2023), entre outros (são tantos que organizamos um infográfico num outro post, sugerimos conferir).

Jennifer e Eleonora, de Senhora do Destino (2004)

Para além da coincidência de tantas personagens chamadas “Clara”, a maior parte desses casos segue estruturas já consolidadas: casais apresentados como unidade, sem trajetórias individualizadas, ou narrativas centradas na descoberta da sexualidade, muitas vezes marcadas por assimetrias na construção das personagens. Cecília explica que boa parte dessas histórias adota a fórmula em que apenas uma das personagens possui um arco mais complexo, enquanto a outra existe como coadjuvante, “em função” da primeira. Em geral, essas tramas se concentram na revelação da sexualidade e no enfrentamento do preconceito contra pessoas LGBTQIAPN+.

“O que costuma se repetir em telenovelas é termos somente uma personagem com um arco narrativo mais robusto. Essa personagem muitas vezes está em um relacionamento heterossexual, e a outra surge para catalisar uma narrativa de revelação sobre a própria sexualidade da primeira. Nesses casos, só essa primeira personagem tem desenvolvimento. A segunda existe em função da outra: não tem muita história, não tem família, não tem enredo próprio”.

Outro padrão repetido por décadas, segundo Cecília, é o apagamento narrativo: “Personagens que somem de repente, morrem ou têm a sexualidade posta em dúvida, ou acabam se relacionando com homens depois de apresentadas como lésbicas”.  Por muito tempo, inclusive, os relacionamentos homoafetivos em telenovelas permaneceram confinados ao subtexto, com casais que não eram nomeados ou explicitamente reconhecidos como tal, podendo “passar” como boas amigas ou parceiras comerciais. Apesar de historicamente essas estratégias terem forçado espaços importantes de representação diante de audiências homofóbicas, o não-dito também é uma forma de invisibilizar e hierarquizar diferentes modos de existir e se relacionar.

Apesar de termos conquistado, ao longo dos anos, “mais mulheres sáficas distintas aparecendo em todas as faixas de horário”, persistem ainda estruturas rígidas que limitam o desenvolvimento dessas personagens, com decisões atravessadas por interferências internas e externas, especialmente aquelas motivadas por uma forma de “censura comercial”, ligada ao receio das emissoras diante de parcelas mais conservadoras do público.

Efeito Loquinha

Talvez seja cedo para comemorar, mas muito mais do que o sucesso comercial de uma caixa de bombons, Loquinha parece emergir como algo qualitativamente novo dentro da teledramaturgia. “Há rupturas na forma como Lorena e Juquinha foram apresentadas e como o romance vem se desenvolvendo”. Para Cecília, a inovação começa pelo modo como as duas foram introduzidas na narrativa. Embora houvesse informação de bastidores antecipando que formariam um casal, a novela não apresentou Juquinha como “interesse amoroso de Lorena”, nem o contrário. Cada uma surgiu em um núcleo distinto, com história, conflitos e motivações próprias.

Juquinha (ou melhor, Eduarda) é apresentada no núcleo da delegacia, como estagiária de Paulinho, com possibilidades de viver um arco que combina humor e amadurecimento profissional. É uma jovem rica que “cansou de ser herdeira” e está em busca de sua vocação. Já Lorena é a filha “rebelde” de Santiago (Murilo Benício) e Zenilda Ferette (Andréia Horta): vegana, feminista, socialmente consciente e, desde o início, em conflito com a ostentação da própria família.

Foram quase dois meses de novela no ar até que as personagens se conhecessem, por meio de Maggye (Mell Muzzillo), uma amiga em comum. Esse tempo de maturação foi importante para que as audiências se conectassem com as duas individualmente, mesmo sem qualquer indicativo narrativo de um romance.

Durante esse período, a trama já explicitava que Juquinha é uma mulher lésbica:

“Ela diz para Gerluce (Sophie Charlotte) que, para ela, homem é que nem marciano, e que do que Paulinho gosta ela também gosta. É muito direto, sem meias palavras, como a própria Lorena diria ao finalmente conhecê-la”.

O primeiro encontro das duas é construído com a mesma gramática audiovisual utilizada para casais heterossexuais da novela. “É muito evidente o clima de romance. A música muda, o olhar muda, o enquadramento muda”. Apesar do menor tempo de tela, o flerte entre Juquinha e Lorena é estética e discursivamente equivalente ao de pares heterossexuais.

“A gente tem uma relação homoafetiva que está sendo construída de forma aberta e explícita, que até o momento foge das narrativas tradicionais de revelação, de sofrimento, de preconceito, ou de estarem sempre associadas à própria sexualidade”.

Assim, Loquinha apresenta algo ainda raro na televisão aberta: duas personagens com vidas independentes que se encontram e formam um casal que também terá enredo próprio. O foco não é o sofrimento, mas a construção da intimidade e do desejo, o humor e o cotidiano de duas mulheres que se aproximam. Algo equiparável aconteceu na fantástica Guerreiros do Sol (Globoplay, 2025), com Jânia (Alinne Moraes) e Otília (Alice Carvalho), mas a produção é voltada para o streaming, ambiente de veiculação com maior liberdade narrativa.

Otília e Jania, de Guerreiros do Sol (Globoplay, 2025)

Otília e Jânia, de Guerreiros do Sol (Globoplay, 2025), também tiveram desenvolvimento distinto das narrativas tradicionais

O manejo da Globo diante da repercussão de Loquinha chama a atenção. Com o viral do ship e o crescimento de fãs internacionais do gênero, a emissora adotou uma prática até então realizada pelas próprias fãs: começou a legendar em vários idiomas os conteúdos de Lorena e Juquinha em suas redes sociais. “A maneira como a Globo está tratando o casal nas redes também é sem precedentes”.

A escolha das atrizes compõe essa estratégia. Para Cecília, escalar Alanis Guillen, que vive um relacionamento homoafetivo em Vermelho Sangue (Globoplay, 2025), e Gabriela Medvedovski, querida por Malhação – Viva a Diferença (TV Globo, 2014) e As Five (Globoplay, 2020-2024), não foi mero acaso. Foi uma decisão que visa dialogar diretamente com públicos jovens e ativos nas redes sociais, que já eram fãs das produções anteriores. Esse diálogo amplia o alcance do romance para além da televisão, consolidando Loquinha como um fenômeno transmidiático.

“Existe uma preocupação da Globo em dialogar com as possíveis fãs do casal. Isso aparece nos cortes divulgados no Instagram, no diálogo direto no X, no TikTok… Eles estão trabalhando esse casal como um casal para ser celebrado e acompanhado pela cultura de fãs”.

Claro que nem tudo é inovação. As duas personagens ainda reproduzem um padrão estético recorrente na teledramaturgia brasileira: são mulheres brancas, jovens, ricas e alinhadas a uma noção hegemônica de feminilidade — cabelos longos, traços delicados e modos de agir associados ao padrão mais “palatável” do gênero. Além disso, a julgar pelo tratamento dado ao casal Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis) na mesma novela, Cecília afirma ter dúvidas sobre até que ponto Lorena e Juquinha terão cenas que expressem afetos íntimos de forma física, como beijos e carícias. Sobre esse ponto, ela espera estar enganada.

Ao final da análise, a pesquisadora manifesta uma expectativa cautelosa: “Espero que não haja casos de cenas sendo tiradas do corte final ou personagens que acabam reduzidas dentro da trama”. Ela ainda ressalta que a história das representações sáficas na TV é marcada por avanços, mas também por retrocessos. O que já foi conquistado em Três Graças pode representar uma mudança importante, desde que o desenvolvimento do casal continue sendo tratado com o cuidado narrativo que o público acolheu.

Cecília Almeida Rodrigues Lima é professora do Departamento e da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, além de coordenadora do Obitel UFPE. Conheça as suas pesquisas.