Manoel Carlos: um autor que ensinou o Brasil a se ver na TV
Lourdes Silva (Obitel UFPR) comenta o legado do autor que marcou os telespectadores. As novelas de Maneco exploram a vida cotidiana, os afetos e as transformações da família brasileira.
Obitel Brasil / 2 de fevereiro de 2026
Em fevereiro de 2008, a pesquisadora e vice-coordenadora da equipe Obitel UFPR, Lourdes Silva, defendeu, na Unisinos (RS), a dissertação Páginas da Vida: a família brasileira sob a ótica da recepção de telenovela. A pesquisa, orientada pela professora Dra. Denise Cogo, analisou de que modo as famílias brasileiras de São Luís (MA), no Brasil, e as famílias brasileiras migrantes, residentes em Portugal, se apropriaram da telenovela Páginas de Vida, de Manoel Carlos, exibida em em 2006 pela TV Globo.
Mais conhecido como “Maneco”, o escritor faleceu em 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos, no Rio de Janeiro, deixando um legado de dezenas de telenovelas, séries e minisséries. Algumas das protagonistas, vilãs e cenas mais icônicas da televisão brasileira foram escritas pelo autor, que estava afastado da televisão desde 2014, quando foi exibida sua última obra, Em Família (TV Globo). Conversamos com Lourdes para compreender a importância desse autor para a teledramaturgia brasileira e para a construção de um público de telenovelas.
“Suas novelas criaram laços afetivos profundos com o público, dentro e fora do Brasil” – Lourdes Silva, Obitel UFPR.
Em sua dissertação, para reconstruir a trama e sua produção de sentido, a pesquisadora partiu das matrizes teóricas dos estudos de recepção e também recorreu ao Cedoc (Memória Globo). Segundo Lourdes, o acervo possibilitou recuperar trechos e detalhes da obra de Manoel Carlos, já que na época, a digitalização dos acervos e o streaming ainda não haviam se popularizado.
Objeto de pesquisa de outras equipes do Obitel Brasil tais como UFSM, UFRGS e UFPR , a obra de Manoel Carlos é norteada por uma assinatura própria na teledramaturgia. Como comenta Lourdes, são histórias ambientadas no Rio de Janeiro, especialmente nos bairros da zona sul como o Leblon, e protagonizadas por mulheres fortes, complexas e emocionalmente intensas. Conhecida como uma marca registrada do autor, a protagonista Helena já foi interpretada por Regina Duarte (História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida), Christiane Torloni (Mulheres Apaixonadas), Vera Fischer (Laços de Família), Taís Araújo (Viver a Vida) e Júlia Lemmertz (Em Família).
Para a pesquisadora, a marca autoral de Manoel Carlos sempre esteve na valorização da vida comum. Isto é, no diálogo, as rotinas domésticas, os conflitos familiares e os pequenos gestos do dia a dia. “Reconhecido por retratar a vida cotidiana da classe média urbana carioca, Manoel Carlos destaca personagens femininas fortes, protagonistas que desafiam os estereótipos de gênero e papel social, promovendo uma representação mais plural e diversificada das configurações familiares”, explicou Lourdes.
Além disso, as obras de Maneco também operam como um vetor pedagógico: em Páginas da Vida, por exemplo, o autor explorou temas como adoção, inclusão e novas configurações familiares, dialogando diretamente com o contexto social do Brasil na época.
Como discutido na dissertação da vice-coordenadora da equipe Obitel UFPR, a novela mostrou como o conceito de família vinha se afastando do modelo exclusivamente nuclear e patriarcal, incorporando arranjos monoparentais, inter-raciais, homoafetivos e outras formas de convivência.
A família em transformação na teledramaturgia
Segundo Lourdes, Manoel Carlos foi um dos autores da teledramaturgia que mais ampliou a representação da família na televisão. A partir do estudo desenvolvido durante o mestrado, a pesquisadora pontua que as histórias criadas por Maneco exploram diversos tipos diferentes de arranjos familiares como, por exemplo, famílias recasadas, unipessoais, extensas, imigrantes e homoafetivas, ampliando a identificação e repertório midiático do público.
Ao expandir o horizonte dos telespectadores, as telenovelas (e Helenas) de Manoel Carlos operam como recurso comunicativo para a cidadania, pois ajudam a construir socialmente sentidos de família, mostrando que ela é uma instituição histórica e cultural, em constante transformação e não um modelo fixo e imutável.
Apesar de frequentemente associado à classe média urbana carioca, Manoel Carlos soube captar dilemas universais: amor, perda, separação, preconceito, envelhecimento, maternidade e solidariedade, afirma Lourdes. “Suas novelas criaram laços afetivos profundos com o público, dentro e fora do Brasil”, destaca.
Com a morte do autor, a televisão brasileira perde um de seus grandes cronistas do cotidiano. Mas as Helenas, os almoços em família, os cafezinhos, os diálogos longos e as emoções à flor da pele continuam vivos na memória do público, como prova de que Manoel Carlos não apenas escreveu novelas, ele ajudou o Brasil a se reconhecer nelas.
Sobre a pesquisa:
Título: Páginas da vida, a família brasileira sob a ótica da recepção da telenovela
Autoria: Lourdes Ana Pereira Silva
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