Personagens influenciadores e a transmidiação em novelas

Com perfis de personagens nas redes sociais, as telenovelas ampliam a narrativa para outras plataformas e formatos, incrementando a experiência do público

Obitel Brasil / 11 de julho de 2025

Maria de Fátima, de Vale Tudo, tem um perfil oficial no Instagram

Com o avanço das múltiplas telas, também avançou o modo de contar histórias. Uma dessas formas foi denominada por Henry Jenkins como transmedia storytelling (narrativa transmídia). No Brasil, o conceito foi difundido principalmente a partir da publicação do livro Cultura da Convergência (2008), de Jenkins.

O autor considera que as narrativas transmídia apresentam um conjunto de elementos distribuídos por múltiplas plataformas de mídia, com o objetivo de contar uma história coesa através de uma experiência coordenada. Cada um desses meios contribui com um universo ficcional em comum, podendo desenvolver programas narrativos próprios, que se articulam e complementam o meio principal da narrativa, a chamada “nave mãe”.

As equipes do Obitel Brasil se debruçaram na pesquisa de narrativas transmídia por quatro anos, em estudos que resultaram em dois volumes da Coleção Teledramaturgia: o volume 2, “Ficção televisiva transmidiática no Brasil“, de 2011, e o volume 3, “Estratégias de transmidiação na ficção televisiva brasileira“, de 2013.

Em uma dessas pesquisas, “Transmidiação: explorações conceituais a partir da telenovela brasileira”, feita pela equipe UFPE e publicada no volume 2, os autores Yvana Fechine, Alexandre Figueirôa e Lívia Cirne mapeiam um panorama geral da transmidiação na telenovela brasileira.

Segundo os autores, a transmídia na telenovela brasileira vem em conjunto com a internet e a interação dos fãs:

“Apelando para desdobramentos, retroalimentação de conteúdos, ou para ambos simultaneamente, o que está na base dos universos transmídias é a proposição ao consumidor de mídias de uma experiência lúdica: ele é convidado a “entrar” em um “mundo construído” para participar de um jogo ficcional, seja buscando conexões entre unidades narrativas complementares, seja em situações de interlocução a partir dos personagens e tramas (interagindo em comunidades virtuais ou em blogs de personagens, por exemplo).”

Perfis de personagens no Instagram

Personagem Maria de Fátima no Instagram. Fonte: @fatimaaciolireal

A emissora que produz a telenovela cria e alimenta esses conteúdos transmídia. É o caso de blogs de personagens – como o da personagem Luciana de Viver a Vida (2010), onde a modelo contava sua adaptação com a cadeira de rodas após sofrer um acidente – ou perfis deles em redes sociais. Com o aumento crescente e cada vez mais presente da profissão de influenciador nas redes sociais, é natural que essa profissão também figure nas novelas, produções que mimetizam, espelham e buscam inspiração na própria realidade brasileira.

A primeira influenciadora de novelas que pode ser considerada como um exemplo de transmidiação foi Vivi Guedes (Paolla Oliveira) em A Dona do Pedaço (2019). Vivi era influenciadora digital dentro da trama, mas a emissora também mantinha um perfil da personagem no site da rede social Instagram. Seguindo os passos da Rede Globo, no mesmo ano a TV Record lançou um modelo parecido para a personagem Maria Antônia (Michelle Batista) na novela Amor Sem Igual (2019).

Perfil de Vivi Guedes. Fonte: Gshow

Esses perfis não necessariamente são imprescindíveis para a compreensão da trama das novelas. Como cita o estudo de Fechine, Figueirôa e Cirne:

“Há casos, porém, em que os conteúdos de uma ou mais mídia estão correlacionados, mas não estão implicados diretamente uns nos outros, o que acaba configurando um segundo tipo de estratégia. A chave da experiência transmídia passa a ser, agora, a ressonância e a retroalimentação dos conteúdos. Um conteúdo repercute ou reverbera o outro, colaborando para manter o interesse, o envolvimento e intervenção criativa do consumidor de mídias no universo proposto, mesmo que não desempenhe, a rigor, uma função narrativa. Trata-se, muito frequentemente, de uma estratégia destinada a repercutir um universo ficcional em redes sociais na Web ou fora dela, acionando o gosto dos consumidores por conversarem e/ou por saberem mais sobre aquilo que consomem nas mídias”.

Ou seja, os perfis dos personagens no Instagram não modificam a narrativa da novela, e nem a trama da novela modifica o que está sendo mostrado nesses perfis, mas a complementa e, principalmente, engaja o interesse do público em ambas as mídias.

Em 2025, a Globo trouxe este recurso transmídia de perfil novamente no Instagram, com o remake de Vale Tudo (2025). Na trama, Maria de Fátima (Bella Campos) decide ser influenciadora e, espelhando a trama, mantém um perfil no site.

Publicação de Maria de Fátima. Fonte: @fatimaaciolireal

Simultaneamente ao mostrar na TV a personagem produzindo e postando seus conteúdos, eles são postados em “tempo real” no perfil. Reafirmando a pesquisa, o interesse pela telenovela nas redes e a interação do público é maciça em relação ao perfil da personagem, mostrando o crescente interesse pelas narrativas transmídia.

Sobre a pesquisa:

Título: Transmidiação: explorações conceituais a partir da telenovela brasileira

Autoria: Yvana Fechine, Alexandre Figueirôa, Lívia Cirne

Publicação: FECHINE, Yvana, et al. Transmidiação: explorações conceituais a partir da telenovela brasileira. In: LOPES, M. I. V. (org.) . Ficção televisiva transmidiática no Brasil. Porto Alegre: Editora Meridional Ltda. 2011. p. 17-59.

Acesse o texto completo.

Obras citadas:

JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

LOPES, M. I. V. (org.). Estratégias de Transmidiação na Ficção Televisiva Brasileira. Porto Alegre: Sulina. 2013.