Bridgerton, autoria e mundos ficcionais
Artigo de pesquisadoras do Obitel PUC-Rio analisa a criação compartilhada do universo da série e suas estratégias narrativas
Obitel Brasil / 1 de maio de 2026
A adaptação de obras literárias para o audiovisual tem se tornado cada vez mais complexa no contexto das plataformas de streaming. No caso de Bridgerton (Netflix, 2020-atual), o que está em jogo não é apenas a transposição de uma história, mas a construção de um universo ficcional expandido, atravessado por diferentes agentes.
Esse é o ponto de partida do artigo “Estratégias autorais e criação de mundos ficcionais: o pacto narrativo de Bridgerton”, publicado na revista GEMInIS, que investiga como se dá a criação compartilhada desse mundo a partir da articulação entre a produtora Shondaland, a plataforma Netflix e a escritora Julia Quinn.
Assinado por Tatiana Oliveira Siciliano e Bruna Aucar — co-coordenadoras do Obitel PUC-Rio — e Tatiana Helich, que também integra a equipe, o estudo parte da noção de que a autoria, na contemporaneidade, se configura como um processo distribuído. Ao adaptar os romances de Quinn, a Shondaland imprime sua marca autoral, especialmente ao propor uma aristocracia multirracial e ao investir em personagens complexos, enquanto a Netflix atua na circulação global do conteúdo e na consolidação de estratégias voltadas ao engajamento.
O artigo mobiliza contribuições teóricas de Michel Foucault e Umberto Eco para pensar a autoria como função discursiva e a narrativa como construção de mundos possíveis. A partir dessas perspectivas, as autoras discutem como o universo de Bridgerton se estrutura a partir de um pacto narrativo — um acordo implícito que sustenta a verossimilhança e orienta a relação entre obra e espectador.
A pesquisa destaca o papel das condições contemporâneas de produção e recepção, marcadas pela plataformização e pela circulação global dos conteúdos. Nesse cenário, a ficção seriada deixa de operar apenas pela adaptação e passa a investir na expansão de mundos narrativos, incorporando novas histórias, personagens e produtos derivados, como os spin-offs, que ampliam o alcance e a complexidade do universo ficcional.
Esse é o caso da Rainha Charlotte, cujo produto derivado conta a origem da visão de mundo multirracial proposta por Bridgerton, fundamental para o entendimento de todo o universo da série, mas que também permite o aprofundamento de aspectos psicológicos de personagens não protagonistas, como a própria Rainha e as mulheres de sua geração (Lady Danbury e Violet Bridgerton).
O artigo evidencia como a construção de mundos ficcionais na atualidade depende da interação entre diferentes instâncias — criativas, industriais e mercadológicas — e de sua capacidade de estabelecer conexões com públicos diversos.
Leia o texto no site da Revista GEMInIS.
Sobre a pesquisa
Título: Estratégias autorais e criação de mundos ficcionais: o pacto narrativo de Bridgerton
Autoria: Tatiana Oliveira Siciliano; Bruna Aucar; Tatiana Helich
Publicação: SICILIANO, T. O.; AUCAR, B.; HELICH, T. Estratégias autorais e criação de mundos ficcionais: o pacto narrativo de Bridgerton. Revista GEMInIS, v. 17, p. 140–160, 2026. DOI: 10.14244/2179-1465.RG.2026v17p140-160.
Conteúdos Relacionados
-

Garota do Momento e a imaginação de um passado possível
2 min de leitura
-

Telenovela, fandom e TikTok: negociações de sentido no remake de Vale Tudo
4 min de leitura
-

Manoel Carlos: um autor que ensinou o Brasil a se ver na TV
5 min de leitura
-

Pesquisadores do Obitel UFJF revisitam estudos sobre a função pedagógica das séries de TV
2 min de leitura