O fandom do casal “Limantha”, de Malhação: Viva a Diferença, e a construção de mundos ficcionais no X (antigo Twitter)

Pesquisa da equipe Obitel Brasil da UFJF mostra as complexas relações entre a produção e o consumo de narrativas seriadas televisivas a partir das criações de fãs

Obitel Brasil / 27 de junho de 2025

As múltiplas inter-relações entre os processos de produção e consumo das ficções seriadas de TV estão no centro do estudo conduzido pelo grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) no biênio 2018-2019 da Rede Obitel Brasil, dedicado à construção de mundos na ficção televisiva brasileira.

A pesquisa busca entender o modo como o fandom, ou seja, o coletivo de fãs dedicado ao casal formado pelas personagens sáficos Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio) da 25ª temporada de Malhação (Globo, 1995-2020), intitulada Viva a Diferença, utilizou-se das ferramentas digitais online para ampliar e ressignificar o arco narrativo do casal na plataforma X (o antigo Twitter).

Para alcançar o objetivo do estudo, a equipe monitorou tanto os conteúdos produzidos pela Globo na construção do mundo ficcional do casal “Limantha” no site oficial e nos seus perfis nas redes sociais digitais quanto a produção do fandom dedicado ao casal. Esta investigação esteve focada no X e foi composta por quatro etapas metodológicas, seguindo as indicações de método de Recuero et al (2015) e as práticas adotadas pelo grupo UFJF em estudo anterior (Sigiliano; Borges, 2019). Resumidamente, as quatro fases do estudo foram: definição das páginas a serem monitoradas; monitoramento e extração dos tweets; codificação dos tweets; e análise das publicações (Borges et al., 2019, p. 112-114). O exame dos tweets publicados pelo fandom foi realizado a partir dos questionamentos teóricos apresentados na pesquisa, especialmente a partir das considerações do estudioso de mídia Jenkins (2012), como demonstrado a seguir.

Ampliações e ressignificações do fandom “Limantha”

De acordo com Jenkins (2012), é possível identificar no mínimo cinco elementos básicos no esforço criativo de apropriação dos conteúdos midiáticos para a criação de histórias e a ampliação dos mundos ficcionais por parte dos fãs. Esses elementos são: (1) as sementes, (2) os buracos, (3) as contradições, (4) os silêncios e (5) os potenciais.

Jenkins (2012, p. 16) define as (1) sementes como os “pedaços de informação introduzidos na narrativa para indicar um mundo maior que não é completamente desenvolvido na história”, geralmente abrindo possibilidades de desdobramentos narrativos a serem explorados. Na pesquisa sobre o fandom “Limantha”, as publicações no Twitter identificadas com essa categoria expandem diferentes sementes do texto principal e dos conteúdos de divulgação da obra. Um dos exemplos principais dessa prática se manifesta por meio da criação de perfis fictícios dos personagens de Malhação no Twitter, cujas publicações repercutem acontecimentos relacionados ao cotidiano dessas personagens e ampliam aspectos apenas mencionados nos capítulos da obra.

Imagem da pesquisa realizada pela equipe UFJF mostra o momento em que Samantha menciona o desejo de viajar em capítulo de Malhação e a montagem criada pelos fãs para “imitar” o smartphone da personagem.

O grupo UFJF destaca o caso em que os fãs criaram uma imagem que imita a interface de um navegador da internet em um smartphone, com várias abas de diferentes páginas abertas, inclusive uma em que é possível identificar uma busca online sobre “turismo pelo Brasil”. Tal imagem procura “imitar” o celular de Samantha, que menciona em um capítulo de Malhação: Viva a Diferença que gostaria de fazer um mochilão pelo país. Segundo os pesquisadores, os conteúdos criados pelos fãs ajudam a trazer verossimilhança para o mundo ficcional, como se as personagens efetivamente existissem e tivessem os mesmos hábitos que outros jovens de sua idade.

Já no caso dos (2) buracos enquanto motivação para a criação dos fãs, Jenkins (2012) afirma que eles são elementos da história que o público sente falta de ver na narrativa principal, em especial por serem importantes para a compreensão dos personagens. Segundo os pesquisadores da equipe UFJF, as questões ligadas à comunidade LGBTQIAPN+ integram alguns dos desdobramentos narrativos do arco do casal “Limantha” em Malhação, mas são tratadas apenas indiretamente, funcionando como subtramas de outros assuntos que ganham mais destaque. Essa abordagem foi questionada pelos fãs em distintas práticas do fandom, em particular com reclamações direcionadas para o modo como a troca de carícias entre os casais heterossexuais deixou explícito o pudor com que as cenas de Lica e Samantha foram tratadas, com os espectadores ironizando a distância entre as personagens em cenas de beijo e a ausência de toques físicos entre elas, por exemplo.

Os (3) silêncios, por sua vez, também dão conta das ausências que a audiência sente na obra, mas de uma maneira mais intensa do que acontece nos buracos. Segundo Jenkins (2012), os silêncios falam de elementos sistematicamente excluídos do mundo ficcional, com consequências ideológicas. Novamente, a temática LGBTQIAPN+ aparece com expressividade, pois a sua abordagem em uma ficção seriada televisiva direcionada para o público juvenil e exibida em emissora aberta nacional fez com que o assunto fosse tratado como um tabu.

Cena dos capítulos finais de Malhação: Viva a Diferença mostra um (dos poucos) beijos trocados pelas personagens Samantha e Lica na obra.

De acordo com os investigadores do grupo UFJF, as críticas dos fãs foram unânimes no Twitter em relação ao modo como a temática é invisibilizada em Malhação: Viva a Diferença, fato que ficou ainda mais evidente quando comparado, mais uma vez, com a forma com que os casais heterossexuais são retratados – inclusive considerando o outro par romântico que Lica tem na obra, Felipe (Gabriel Calamari). O uso de hashtags pelo fandom “Limantha” como forma de protesto foi marcante. Um dos exemplos dessa postura foi a indexação #LimanthaSemCensura, utilizada justamente para destacar a diferença de tratamento entre os pares Lica e Samantha e Lica e Felipe. Os fãs destacaram que Lica costumava se aproximar e tocar nos ombros e nas mãos de Felipe, enquanto a interação com Samantha na ocasião do protesto consistia apenas em uma breve troca de olhares entre as personagens. Os dados levantados pela equipe UFJF mostram que a hashtag gerou cerca de 31 mil tweets e chegou a figurar em quarto lugar nos Trending Topics do Brasil.

A quarta motivação para as apropriações e ressignificações dos fãs indicada por Jenkins (2012) diz respeito às (4) projeções, as especulações dos fãs sobre o que poderia ter acontecido na história para além dos limites do mundo ficcional. Os tweets pertencentes a essa categoria ocorreram, sobretudo, após a exibição do capítulo final de Malhação: Viva a Diferença e deram continuidade aos arcos narrativos deixados em aberto pelo encerramento da obra. Nesse caso, o fandom deliberou coletivamente sobre as possibilidades de acontecimentos nas vidas posteriores das personagens.

Uma ilustração dessa prática é a ação Ask Limantha, promovida pelo perfil @TagsLimantha, a qual propunha discussões coletivas no fandom a partir de perguntas sobre os potenciais da trama, como, por exemplo, quais cursos Lica e Samantha estariam estudando na faculdade? Os fãs compartilharam trechos de Malhação: Viva a Diferença e argumentaram sobre os principais interesses e aptidões das adolescentes, chegando à conclusão que Lica se dedicaria à faculdade de Artes Plásticas, e Samantha cursaria Arquitetura. Tais conclusões foram absorvidas também em fanfics dedicadas ao casal, cujas tramas apresentam capítulos situados anos após o fim da obra, com as personagens já formadas e vivendo fora do Brasil.

Por fim, as (5) contradições são definidas por Jenkins (2012) como os elementos, intencionais ou não, que emergem da narrativa como sugestões de possibilidades alternativas para os personagens. No caso do fandom “Limantha”, os tweets dessa categoria associam o mundo ficcional da obra com contextos e situações externas à história. Um exemplo é a piada interna, entre os fãs do par romântico, de que a atriz Manoela Aliperti, intérprete de Lica, moraria em uma caverna isolada, sem sinal de internet, e que por isso raramente postava algo em suas redes sociais. Essa brincadeira foi associada com um momento na narrativa de Malhação em que Lica cria uma instalação de arte chamada “Caverna do Futuro”, a qual os fãs afirmam, ironicamente, ser o local onde a atriz vivia.

Outra situação em que o fandom explorou alternativas em relação ao que foi mostrado no mundo ficcional é o crossover entre o núcleo familiar de Samantha em Malhação e a personagem Marina (Tainá Müller), da telenovela Em Família (Globo, 2014). Ao refletirem sobre o fato de que a família de Samantha não é abordada na história, os fãs elaboraram a “teoria” de que o motivo para a ausência dos pais da personagem seria, na verdade, porque ela é filha do casal Marina e Clara (Giovanna Antonelli), dadas as semelhanças identificadas pelo fandom entre as personalidades da adolescente e da fotógrafa interpretada por Tainá Müller na obra de Manoel Carlos. A repercussão dos fãs de “Limantha” foi tanta que a atriz Tainá Müller chegou a publicar uma foto no seu Instagram pessoal com Giovanna Grigio, contendo a legenda “Minha filha perdida!”.

Capturas da pesquisa realizada pelo grupo UFJF ilustram as semelhanças entre as personagens Samantha e Marina e a foto compartilhada no Instagram da atriz Tainá Müller.

Os conteúdos compartilhados pelo fandom do casal “Limantha” no Twitter demonstram a correlação entre a compreensão crítica dos conteúdos de mídia e a produção criativa dos fãs nessa rede social. Para os pesquisadores da equipe UJFJ, a produção gerada pelos fãs é guiada pela constante análise e reassistência dos arcos narrativos relativos ao casal, além de ser confeccionada levando em consideração as particularidades de funcionamento da plataforma, como o foco na interação social, a indexação de ideias em torno das hashtags, a limitação do espaço textual e os aspectos multimodais. Tal percepção dos fãs ressalta o letramento midiático afinado desse grupo de espectadores, o que, por sua vez, destaca a riqueza analítica do estudo de suas práticas e de seus comportamentos em torno da ficção seriada televisiva brasileira.

Obras citadas:

JENKINS, H. Lendo criticamente e lendo criativamente. MATRIZes, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 11-24, 2012.

Recuero, R. et al. Análise de redes para mídia social. Porto Alegre: Sulina, 2015.

SIGILIANO, D; BORGES, G. Competência midiática e cultura de fãs: análise do Twittertainment na social TV brasileira. RuMoRes, v. 13, n. 26, p. 254-273, 2019. Disponível em: https://bit.ly/3AQnW4x. Acesso em: 27 nov. 2024.

SOBRE A PESQUISA

Título: A construção de mundos ficcionais pelo fandom Limantha, de Malhação: Viva a Diferença

Autoria: Gabriela Borges, Maria Cristina Brandão de Faria, Daiana Sigiliano, Leony Lima, Pedro Martins, Matheus Soares e Lucas Vieira

Publicação: BORGES, G. et al. A construção de mundos ficcionais pelo fandom Limantha, de Malhação: Viva a Diferença. In: LOPES, M. I. V. (org.). A construção de mundos na ficção televisiva brasileira. (Coleção Teledramaturgia, Volume 6). Porto Alegre: Sulina, 2019. p. 107-130.

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