Pesquisadoras do Obitel Brasil investigam práticas dos fãs do casal sáfico Clarena, da novela Vai na Fé
O artigo, publicado na revista Observatorio (OBS*), avaliou quase 39 mil tweets de 37 perfis de fãs para investigar as práticas críticas do fandom de Clarena
Obitel Brasil / 27 de junho de 2025
Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman) formam um dos casais mais populares da novela Vai na Fé
As pesquisadoras Cecília Almeida, Daiana Sigiliano e Gêsa Cavalcanti, das equipes UFPE e UFJF do Obitel Brasil, publicaram o artigo “Entre a celebração e a crítica: práticas dos fãs do casal sáfico Clarena, da telenovela ‘Vai na Fé’, no X”. O objetivo é investigar a conversação em rede desses fãs, para compreender como evidenciam, pelos tweets, um consumo crítico da obra, além de um repertório midiático sobre a narrativa e convenções de gênero.
Clarena é o ship do casal Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman), personagens da novela Vai na Fé (2023). Inicialmente, Clara vive um casamento abusivo com Theo (Emílio Dantas), mas, ao longo da trama, acaba se apaixonando pela sua personal trainer, Helena. Entretanto, o novo casal enfrenta uma série de desafios até alcançar o final feliz, no último capítulo.
De acordo com as pesquisadoras, o interesse dos fãs nesse casal “segue uma tendência de uma fatia da audiência de telenovelas que demanda mais representação de grupos que foram historicamente marginalizados – socialmente e midiaticamente. A presença de personagens LGBTQIAPN+ e, mais especificamente, de mulheres sáficas (lésbicas ou bissexuais) em telenovelas, ainda é uma exceção que, quando ocorre, está submetida a regras de visibilidade distintas daquelas impostas aos personagens heterossexuais […]”.
A partir da análise da conversação no X, o estudo aponta a expressão crítica dos fãs de Clarena, que desaprovavam o desenvolvimento do arco narrativo do casal, considerado lento e superficial, e ironizavam, a partir de memes, lacunas na telenovela, como a repetição do figurino de Helena. Os fãs, ainda, repercutiam a censura de cenas de beijo entre as personagens, comparando a representação do casal sáfico à representação de casais heterossexuais, que possuíam mais tempo de tela e cenas afetivo-sexuais mais gráficas.
As pesquisadoras concluem que “no caso da representação de mulheres sáficas, nota-se que, enquanto a visibilidade é desejada e celebrada, a mera presença de personagens em produtos da teledramaturgia nacional não é suficiente. Fãs dessas personagens esperam encontrar qualidade de roteiro, coerência narrativa e cenas de demonstração de afeto concedidas aos casais heterossexuais. Quando essa expectativa é frustrada, elas buscam preencher a lacuna entre desejo e realidade por meio de atividades críticas e criativas, compartilhadas coletivamente, construindo uma comunidade unida por um interesse comum”.
“Essa constatação indica que, embora tenham havido conquistas em termos de abrangência (maior quantidade de personagens, presença em todas as faixas de horário etc) houve pouco espaço para o investimento nessas narrativas, que por vezes recaem em estereótipos ou permanecem como pano de fundo, sem grande desenvolvimento ou destaque”.
Acesse o artigo completo, disponível na revista Observatorio (OBS*)!
Sobre a pesquisa
Título: Entre a celebração e a crítica: práticas dos fãs do casal sáfico Clarena, da telenovela “Vai na Fé”, no X
Autoria: Cecília Almeida Rodrigues Lima, Daiana Sigiliano, Gêsa Karla Maia Cavalcanti
Publicação: LIMA, Cecília Almeida Rodrigues; SIGILIANO, Daiana; CAVALCANTI, Gêsa Karla Maria. Entre a celebração e a crítica: práticas dos fãs do casal sáfico Clarena, da telenovela “Vai na Fé”, no X. Observatorio (OBS*), [S. l.], v. 18, n. 4, 2024.



